João Calvino (1509-1564) foi um teólogo e pastor francês, o principal nome da segunda geração da Reforma Protestante. Ele organizou a igreja de Genebra, na Suíça, e escreveu as "Institutas da Religião Cristã", a obra de teologia protestante mais influente do século 16. Dele descendem as igrejas reformadas e presbiterianas, que hoje reúnem dezenas de milhões de fiéis no mundo.

No Brasil, Calvino tem uma ligação direta com a história: em 1557, um grupo de calvinistas enviado de Genebra chegou à Baía de Guanabara. Foi uma das primeiras presenças protestantes nas Américas.

Ficha

Nome originalJean Cauvin (Calvinus, em latim)
Nascimento10 de julho de 1509, em Noyon, na Picardia, França
Morte27 de maio de 1564, em Genebra
FormaçãoArtes em Paris; Direito em Orléans e Bourges
Obra principalInstitutas da Religião Cristã (1ª edição em 1536; edição final em latim em 1559)
EsposaIdelette de Bure, viúva de um anabatista, com quem se casou em 1540
TradiçãoReformada (presbiterianos, reformados, congregacionais)

Linha do tempo

1509 a 1533: o estudante. Filho de um funcionário da diocese de Noyon, Calvino foi preparado inicialmente para a carreira eclesiástica e depois para o Direito, por vontade do pai. Em Paris e Orléans, teve contato com o humanismo, que defendia voltar aos textos originais, inclusive da Bíblia em grego e hebraico.

Por volta de 1533: a conversão. No prefácio ao comentário dos Salmos (1557), Calvino descreve a mudança como uma "conversão súbita" que o levou a abandonar a Igreja de Roma. Ele não dá data exata, e os biógrafos a situam entre 1532 e 1534.

1534 a 1536: o exílio. Depois do Caso dos Cartazes, em outubro de 1534, quando panfletos contra a missa foram afixados em Paris, a perseguição aos protestantes na França aumentou. Calvino foi para Basileia, onde publicou a primeira edição das Institutas, em 1536, dedicada ao rei Francisco I em defesa dos protestantes franceses.

1536 a 1538: a primeira passagem por Genebra. De passagem pela cidade, foi convencido pelo reformador Guilherme Farel a ficar. Os conflitos com o conselho municipal sobre a disciplina da igreja levaram à expulsão dos dois em 1538.

1538 a 1541: Estrasburgo. Calvino foi pastor de uma congregação de refugiados franceses e conviveu com o reformador Martin Bucer. Ali se casou com Idelette de Bure, que morreu em 1549.

1541 a 1564: Genebra de novo. Chamado de volta em 1541, redigiu as Ordenanças Eclesiásticas. O documento organizou a igreja em quatro ministérios: pastores, doutores (professores), presbíteros e diáconos. Em 1559, fundou a Academia de Genebra, que formou pastores para a França, os Países Baixos, a Escócia e outras regiões.

1564: a morte. Calvino morreu em Genebra aos 54 anos. A pedido dele, foi enterrado sem lápide.

As ideias que marcaram

A soberania de Deus. O ponto de partida das Institutas é o conhecimento de Deus e de nós mesmos. A frase de abertura afirma que quase toda a sabedoria verdadeira consiste nessas duas partes (livro I, capítulo 1). Tudo na teologia de Calvino gira em torno da ideia de que Deus governa a história e a salvação.

A predestinação. É a doutrina mais associada ao nome dele, embora não tenha sido invenção sua: Agostinho e Lutero também falaram de eleição. Calvino ensinou que Deus escolhe, desde a eternidade, quem será salvo, com base em textos como Efésios 1:4-5 e Romanos 9. Os críticos argumentam que essa leitura compromete a responsabilidade humana. O debate dentro do próprio protestantismo levou ao Sínodo de Dort (1618-1619), que tomou o lado calvinista contra os seguidores de Jacó Armínio. Metodistas, a maioria dos pentecostais e muitos batistas seguem hoje uma linha arminiana.

A ceia do Senhor. Calvino ficou entre Lutero, que defendia a presença real do corpo de Cristo no pão, e Zuínglio, que via a ceia sobretudo como memorial. Para Calvino, Cristo está presente de forma espiritual e real, e o fiel participa dele pela fé, por obra do Espírito Santo. As diferenças entre essas visões estão em batismo, ceia e ordenanças cristãs.

A igreja governada por presbíteros. O modelo de governo por conselhos de presbíteros, e não por bispos, deu nome às igrejas presbiterianas.

Vocação e trabalho. Calvino valorizava o trabalho comum como serviço a Deus. No século 20, o sociólogo Max Weber ligou essa ética ao surgimento do capitalismo, numa tese famosa e até hoje discutida pelos historiadores.

As controvérsias

O episódio mais criticado da vida de Calvino é a execução de Miguel Serveto, médico e teólogo espanhol que negava a doutrina da Trindade. Serveto foi preso em Genebra, julgado pelo conselho da cidade e queimado em 27 de outubro de 1553. Calvino apoiou a condenação, mas pediu, sem sucesso, que a pena fosse a decapitação, considerada menos cruel.

A execução de hereges era prática comum em quase toda a Europa da época, entre católicos e protestantes. Mesmo assim, o caso marcou a imagem de Calvino. Em 1903, igrejas reformadas ergueram em Genebra um "monumento expiatório" no local da execução, reconhecendo o erro.

Os calvinistas na Baía de Guanabara

Em 1555, o militar francês Nicolas Durand de Villegaignon fundou a França Antártica numa ilha da Baía de Guanabara, a atual Ilha de Villegagnon. Ele pediu apoio a Genebra, e em março de 1557 chegaram 14 calvinistas, entre eles os pastores Pierre Richier e Guillaume Chartier e o jovem sapateiro Jean de Léry. Léry escreveria depois a "Viagem à Terra do Brasil", um dos relatos mais importantes sobre os tupinambás.

A convivência durou pouco. Villegaignon rompeu com os calvinistas por divergências sobre a ceia, e eles foram expulsos da ilha em outubro de 1557. Alguns que voltaram foram obrigados a responder por escrito a perguntas doutrinárias. O resultado foi a Confissão de Fé da Guanabara, de 17 artigos, escrita em janeiro ou fevereiro de 1558. Três dos autores foram mortos por ordem de Villegaignon por não renegarem a fé.

O episódio é lembrado por igrejas reformadas e presbiterianas no Brasil. A colônia francesa caiu em 1560 e foi expulsa de vez em 1567, depois da fundação do Rio de Janeiro por Estácio de Sá, em 1565.

O legado

Pelas mãos de seus discípulos, como John Knox na Escócia, o calvinismo chegou à Holanda, à Escócia, à Inglaterra puritana e, depois, aos Estados Unidos. No Brasil, a tradição reformada se estabeleceu de vez no século 19, com a missão presbiteriana iniciada em 1859. O lugar de Calvino entre os outros reformadores está em quem foi Martinho Lutero e em causas e consequências da Reforma. O mapa das igrejas que nasceram desse movimento está em origem das denominações cristãs.

Fontes