A grande variedade de denominações cristãs que existe hoje não surgiu de uma vez — ela é resultado de duas rupturas históricas principais, separadas por cerca de 500 anos, seguidas por uma multiplicação contínua dentro de cada ramo, incluindo o avivamento que deu origem ao pentecostalismo, hoje a maior família evangélica do Brasil.

A primeira ruptura: o Grande Cisma de 1054

A primeira grande divisão institucional do cristianismo separou a igreja do Oriente da igreja do Ocidente. O rompimento formal aconteceu em 16 de julho de 1054, quando o papa Leão IX excomungou o patriarca de Constantinopla, Miguel Cerulário, que respondeu excomungando o papa de volta.

Esse episódio foi o ápice de um distanciamento que já se acumulava havia séculos, por diferenças de idioma, cultura, política e teologia — incluindo debates sobre a autoridade do papa sobre os patriarcas orientais e diferenças de disciplina eclesiástica, como o celibato obrigatório do clero (ocidental) frente ao clero casado (oriental). O resultado foi a separação entre o que se tornaria a Igreja Católica Romana, no Ocidente, e as igrejas ortodoxas — grega, russa e outras tradições orientais — no Oriente.

A segunda ruptura: a Reforma Protestante

Cerca de 460 anos depois, a Reforma Protestante do século 16 dividiu, dessa vez, o próprio cristianismo ocidental. O artigo Reforma Protestante: causas, personagens e consequências detalha esse processo, que deu origem a três famílias principais: luteranismo, tradição reformada (calvinista) e anglicanismo — além do anabatismo, ramo mais radical que originaria, mais tarde, tradições como menonitas e batistas.

A multiplicação dentro do protestantismo

A partir dessas famílias iniciais, o protestantismo continuou se dividindo e se multiplicando ao longo dos séculos seguintes, por razões teológicas, geográficas e de estilo de culto.

O metodismo

Surgiu no século 18, a partir do trabalho de John Wesley dentro da própria Igreja Anglicana, com ênfase na santificação pessoal e em grupos pequenos de acompanhamento mútuo (as "class meetings", descritas em o que é discipulado), antes de se tornar uma denominação separada.

O pentecostalismo e o avivamento da Rua Azusa

O pentecostalismo, hoje uma das maiores e mais numerosas famílias do cristianismo mundial — e a maior família evangélica do Brasil —, nasceu de um avivamento específico: o Avivamento da Rua Azusa, iniciado na primavera de 1906, num antigo templo metodista episcopal africano no número 312 da Azusa Street, em Los Angeles.

O líder do movimento foi o pregador William J. Seymour, filho de ex-escravizados, que havia se mudado do Mississippi para a Califórnia no início de 1906 e começou a realizar pequenas reuniões domésticas. Depois de uma primeira manifestação de glossolalia (o falar em línguas) em abril daquele ano, o grupo cresceu rapidamente e se tornou racialmente integrado — um fato notável para os padrões sociais da época nos Estados Unidos, com negros e brancos participando dos mesmos cultos, algo incomum antes da revolução dos direitos civis. Nos anos seguintes, milhares de pessoas viajaram até a Azusa Street em busca de curas, do dom de línguas e de uma experiência de culto mais espontânea do que a praticada nas igrejas tradicionais da época. Em setembro de 1906, Seymour começou a publicar seu próprio jornal, o Apostolic Faith, que chegou a ter cerca de 50 mil assinantes gratuitos ao redor do mundo em seu auge — um dos principais canais que ajudaram a espalhar o movimento pentecostal internacionalmente, inclusive para o Brasil poucos anos depois.

A chegada do pentecostalismo ao Brasil

O movimento chegou ao Brasil por meio de dois missionários suecos, Daniel Berg e Gunnar Vingren, que desembarcaram em Belém, no Pará, em 19 de novembro de 1910. Em 18 de junho de 1911, na casa de Celina de Albuquerque, os dois fundaram a primeira igreja da Assembleia de Deus no país, depois que um episódio de batismo no Espírito Santo, vivido por duas irmãs da congregação, gerou controvérsia dentro de uma igreja batista local e resultou na expulsão de 13 membros, em 13 de junho de 1911 — um evento fundador direto da denominação.

A partir desse núcleo inicial, o crescimento foi rápido: em pouco mais de três décadas (1911-1944), a Assembleia de Deus já estava presente em todos os estados da federação, e em 1947, na 8ª Convenção Geral das Assembleias de Deus, realizada em São Paulo, o Brasil já era contado como o terceiro país do mundo em número de fiéis pentecostais, com cerca de 100 mil batizados — o início de uma trajetória que faria do pentecostalismo, décadas depois, a maior força evangélica do país.

Igrejas batistas e não denominacionais

As igrejas batistas se organizaram em múltiplas convenções regionais e nacionais, sem uma autoridade central única — reflexo do modelo congregacional de governança descrito em como funciona uma igreja. Mais recentemente, o crescimento de igrejas não denominacionais, sem vínculo formal a uma tradição histórica específica, tem sido uma das tendências mais visíveis do cristianismo evangélico contemporâneo.

Por que isso importa para entender o cristianismo hoje

Entender essa árvore genealógica ajuda a situar qualquer igreja específica dentro de uma tradição maior — mesmo denominações que parecem completamente distintas hoje, como uma igreja luterana e uma igreja pentecostal, compartilham uma origem histórica comum na Reforma, ainda que tenham se desenvolvido de formas muito diferentes desde então. O panorama das principais denominações em atividade hoje está em principais denominações cristãs e o que as diferencia.

Perguntas frequentes

Qual foi a primeira grande divisão do cristianismo?

O Grande Cisma de 1054, que separou a igreja do Oriente (que se tornaria as igrejas ortodoxas) da igreja do Ocidente (que se tornaria a Igreja Católica Romana).

Todas as igrejas protestantes vêm diretamente de Lutero?

Não. Lutero deu início ao movimento na Alemanha, mas ramos como o calvinismo (Suíça), o anglicanismo (Inglaterra) e o anabatismo tiveram origens e lideranças próprias, todos dentro do mesmo período histórico da Reforma.

De onde vem o pentecostalismo?

Do Avivamento da Rua Azusa, iniciado em 1906 em Los Angeles sob a liderança do pregador William J. Seymour — um movimento que se espalhou rapidamente pelo mundo, incluindo o Brasil, onde chegou em 1910 por meio dos missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren, dando origem à Assembleia de Deus em 1911.

Conclusão

A diversidade denominacional do cristianismo de hoje tem uma origem identificável: o Grande Cisma de 1054 separou Oriente e Ocidente, a Reforma Protestante do século 16 dividiu o Ocidente em múltiplas tradições, e o Avivamento da Rua Azusa, em 1906, deu origem ao pentecostalismo — que chegou ao Brasil já em 1910, com dois missionários suecos, e se tornaria décadas depois a maior força evangélica do país. Cada uma dessas tradições continuou a se multiplicar nos séculos seguintes, resultando na paisagem denominacional ampla e variada que existe hoje.

Fontes