A Reforma Protestante foi o movimento religioso do século 16 que dividiu a Igreja no Ocidente entre católicos e protestantes. Seu marco simbólico é 31 de outubro de 1517, quando o monge e professor Martinho Lutero divulgou em Wittenberg, na Alemanha, 95 teses contra a venda de indulgências. Em poucas décadas, surgiram igrejas luteranas, reformadas, anabatistas e anglicanas, e a Igreja Católica respondeu com o Concílio de Trento.
A trajetória pessoal de Lutero tem um perfil próprio em quem foi Martinho Lutero. Aqui o foco é o movimento: por que ele pegou, como se dividiu e o que mudou.
As causas: quatro fatores que se somaram
1. A disputa teológica. O estopim foi a campanha de indulgências para financiar a reconstrução da Basílica de São Pedro, em Roma, promovida na Alemanha pelo pregador dominicano Johann Tetzel. Por trás dela havia uma questão maior: como a pessoa é salva. Lutero passou a ensinar que a justificação vem pela fé na graça de Deus, a partir de textos como Romanos 1:17 ("o justo viverá por fé") e Efésios 2:8-9.
2. A crítica à instituição. Havia décadas, pregadores e humanistas criticavam abusos como a venda de cargos eclesiásticos e o acúmulo de bispados. Erasmo de Roterdã, católico até o fim, publicou em 1516 uma edição do Novo Testamento grego que estimulou a volta aos textos originais. Antes deles, John Wycliffe, na Inglaterra, e Jan Hus, na Boêmia (queimado em 1415), já haviam contestado a autoridade papal.
3. A política. Os príncipes alemães viviam sob o Sacro Império Romano-Germânico e tinham interesse em reduzir a influência de Roma e o dinheiro enviado para lá. O eleitor Frederico, o Sábio, da Saxônia, protegeu Lutero depois que a Dieta de Worms o declarou fora da lei, em 1521.
4. A imprensa. A prensa de tipos móveis, desenvolvida por Gutenberg em meados do século 15, permitiu que panfletos, sermões e, depois, a tradução da Bíblia de Lutero para o alemão (Novo Testamento em 1522, Bíblia completa em 1534) circulassem em grande escala.
Os quatro ramos da Reforma
| Ramo | Onde e quando | Nomes centrais | Marcas |
|---|---|---|---|
| Luterano | Saxônia, a partir de 1517 | Martinho Lutero, Filipe Melanchthon | Confissão de Augsburgo (1530); mantém liturgia e muitos elementos tradicionais |
| Reformado (calvinista) | Zurique (1519) e Genebra (1536) | Ulrico Zwínglio, João Calvino, John Knox | "Institutas da Religião Cristã" de Calvino; culto mais despojado; presbiterianos e reformados descendem daqui |
| Anabatista (Reforma radical) | Zurique e regiões vizinhas, a partir de 1525 | Conrad Grebel, Menno Simons | Batismo só de adultos que professam a fé; separação entre Igreja e Estado; origem dos menonitas |
| Anglicano | Inglaterra, a partir de 1534 | Henrique VIII, Thomas Cranmer, Elizabeth I | Ato de Supremacia (1534); Livro de Oração Comum (1549); combina estrutura episcopal e teologia reformada |
Os quatro ramos concordam em pontos que mais tarde foram resumidos nas "cinco solas": só a Escritura, só a graça, só a fé, só Cristo e glória só a Deus. Divergem em temas como a presença de Cristo na ceia, o batismo de crianças e a relação com o Estado.
A resposta católica
A Igreja Católica convocou o Concílio de Trento, que se reuniu em três fases entre 1545 e 1563. Ele reafirmou a doutrina católica sobre a justificação, os sete sacramentos e o cânon bíblico com os livros deuterocanônicos, e criou os seminários para formação do clero. No mesmo período, a recém-fundada Companhia de Jesus (aprovada em 1540) tornou-se a principal força missionária e educacional católica, inclusive no Brasil.
Historiadores usam tanto "Contrarreforma" quanto "Reforma Católica" para esse movimento. O segundo termo destaca que houve também um esforço interno de renovação, que já existia antes de 1517.
As consequências
Guerras e acordos. A Paz de Augsburgo (1555) permitiu a cada príncipe alemão escolher entre o luteranismo e o catolicismo para seu território, princípio depois resumido como "cuius regio, eius religio". As guerras religiosas continuaram até a Paz de Vestfália (1648), que encerrou a Guerra dos Trinta Anos.
Leitura e educação. A ênfase protestante na leitura pessoal da Bíblia impulsionou traduções para as línguas nacionais e a alfabetização. A tradução portuguesa de João Ferreira de Almeida, feita por um pastor reformado no século 17, é herdeira direta disso, como mostra o guia de traduções da Bíblia.
Novas igrejas. Quase todo o protestantismo atual, das igrejas históricas às pentecostais, descende desses ramos, como explica como surgiram as denominações cristãs.
A Reforma no Brasil do século 16
A Reforma chegou ao Brasil cedo e de forma breve. Em 1555, o francês Nicolas Durand de Villegaignon fundou a França Antártica na baía de Guanabara. Em 1557 chegaram calvinistas enviados de Genebra, que celebraram o que é considerado o primeiro culto protestante das Américas.
Após conflitos com Villegaignon, alguns desses calvinistas foram condenados à morte em 1558. Antes da execução, redigiram a chamada Confissão de Fé da Guanabara, texto lembrado até hoje por igrejas presbiterianas brasileiras. A presença protestante organizada só voltaria no século 19.
De 1517 ao diálogo de hoje
Em 31 de outubro de 1999, a Igreja Católica e a Federação Luterana Mundial assinaram, em Augsburgo, a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação, afirmando um consenso em verdades básicas sobre o tema que dividiu as igrejas em 1517. Metodistas, reformados e anglicanos aderiram depois.
Em 31 de outubro de 2016, o papa Francisco participou em Lund, na Suécia, de uma celebração conjunta com a Federação Luterana Mundial na abertura dos 500 anos da Reforma. As diferenças persistem, mas o tom mudou: de condenações mútuas para o reconhecimento do que é comum. Outros exemplos dessa aproximação estão em como funcionam os eventos ecumênicos.
Fontes
- Wikipedia. Ninety-five Theses.
- Wikipedia. Huldrych Zwingli.
- Wikipedia. John Calvin.
- Wikipedia. Anabaptism.
- Wikipedia. Council of Trent.
- Wikipedia. Cuius regio, eius religio.
- Wikipedia. France Antarctique.
- Portal Luteranos (IECLB). Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação: significado e alcance.
- Santa Sé. Homilia do papa Francisco na oração ecumênica comum em Lund, 31 de outubro de 2016.




