"Castelo Forte" é a versão em português de "Ein feste Burg ist unser Gott" ("Nosso Deus é um castelo forte"), hino escrito por Martinho Lutero a partir do Salmo 46. Composto no fim da década de 1520, virou o hino símbolo da Reforma Protestante e ainda é cantado em igrejas luteranas, batistas, presbiterianas, metodistas, adventistas e assembleianas no Brasil, quase sempre perto de 31 de outubro.
A letra tem quatro estrofes, e a melodia, de ritmo forte e marcado, é atribuída ao próprio Lutero. O poeta alemão Heinrich Heine chamou o coral de "a Marselhesa da Reforma", comparando-o ao hino da Revolução Francesa.
O Salmo por trás do hino
O ponto de partida é o Salmo 46, um cântico de confiança em Deus diante do caos. O primeiro versículo diz, na Almeida Revista e Atualizada (ARA): "Deus é o nosso refúgio e fortaleza, socorro bem presente nas tribulações". O salmo ainda tem um refrão, repetido nos versículos 7 e 11: "O Senhor dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio".
Lutero não fez uma tradução versículo a versículo, mas uma paráfrase. Ele mantém a imagem central da fortaleza e a confiança no meio da ameaça. O texto bíblico, porém, fala de terra tremendo, águas rugindo e nações em guerra, enquanto o hino desloca o foco para a luta espiritual contra "o antigo inimigo", o diabo.
A segunda estrofe é a principal interpretação cristã do salmo. Ela pergunta quem luta pelo fiel e responde com o nome de Jesus Cristo, chamado de "Senhor Sabaoth", o "Senhor dos Exércitos" do refrão do salmo. É uma leitura cristológica típica de Lutero, que lia os Salmos à luz de Cristo. Uma leitura judaica do Salmo 46 não faz essa identificação.
Quando o hino foi escrito
Ninguém sabe a data exata. O portal da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) reúne várias hipóteses. Uma tradição liga o hino à viagem de Lutero à Dieta de Worms, em 1521. Outra o liga à grave doença que ele teve em 1527 ou ao avanço do Império Otomano sobre Viena, em 1529. A maior parte dos estudiosos o situa entre 1527 e 1529.
O que se sabe com segurança vem das edições impressas:
| Ano | Edição | O que se sabe |
|---|---|---|
| 1528 | Hinário de Hans Weiss, Wittenberg | Citado como possível primeira edição; nenhum exemplar conhecido |
| 1529 | Geistliche Lieder, de Joseph Klug, Wittenberg | Incluía o hino; a edição se perdeu |
| 1531 | Hinário de Andreas Rauscher, Erfurt | Fonte mais antiga que sobreviveu, com o título de "Salmo 46" |
Antes dos hinários, Lutero fez circular o hino em folhas soltas. Era o meio de comunicação de massa da época, e foi assim que os textos da Reforma se espalharam pela Alemanha.
A melodia e o canto da congregação
O canto congregacional em língua local era uma das bandeiras de Lutero. Em vez de um coro cantando em latim, a assembleia inteira cantava em alemão, e "Ein feste Burg" foi feito para isso. A melodia é atribuída a Lutero, que tocava alaúde, com a colaboração do mestre de capela Johann Walther, segundo a tradição luterana.
A versão original tinha ritmo irregular, com síncopes. Nos séculos seguintes, muitas igrejas passaram a cantá-la em notas iguais, mais lentas e solenes. É essa versão "isométrica" que a maior parte dos hinários brasileiros usa. Vários hinários luteranos do século 20 voltaram a trazer a forma rítmica.
Da igreja para a música de concerto
Poucos hinos tiveram tantas releituras na música clássica:
- Johann Sebastian Bach usou o coral na cantata "Ein feste Burg ist unser Gott" (BWV 80), para o Dia da Reforma, em Leipzig.
- Felix Mendelssohn citou a melodia no último movimento da Sinfonia nº 5, a "Reforma", escrita para os 300 anos da Confissão de Augsburgo (1830).
- Giacomo Meyerbeer usou o tema na ópera "Os Huguenotes" (1836), sobre os protestantes franceses.
Em inglês, o hino ganhou várias traduções. As mais conhecidas são a de Thomas Carlyle ("A safe stronghold our God is still", 1831) e a de Frederick H. Hedge ("A mighty fortress is our God", 1853).
"Castelo Forte" nos hinários brasileiros
O hino entrou cedo nos hinários protestantes em português, com traduções diferentes conforme a igreja. Alguns exemplos com numeração conferida:
| Hinário | Igreja | Título e número |
|---|---|---|
| Cantor Cristão | Batistas | "Castelo forte é nosso Deus", nº 323 |
| Hinário Adventista | Adventistas do Sétimo Dia | nº 33 |
| Hinos do Povo de Deus | Luteranos (IECLB) | "Deus é castelo forte e bom", nº 97 |
| Harpa Cristã | Assembleias de Deus | "Castelo Forte" |
A diferença entre "Castelo forte é nosso Deus" e "Deus é castelo forte e bom" mostra que não existe uma única tradução oficial. Cada tradição fez a sua versão, adaptando a métrica ao português. A história dos hinários brasileiros mais antigos está em história da música gospel no Brasil.
Como o hino é usado hoje
Em igrejas luteranas e reformadas, "Castelo Forte" costuma abrir ou encerrar o culto do Dia da Reforma, em 31 de outubro. O contexto daquela data está explicado em as 95 teses de Lutero e no perfil de Martinho Lutero.
Fora desse dia, o hino aparece em momentos de crise e de luto. Para quem prepara um estudo ou uma ministração, ler o Salmo 46 inteiro antes de cantar é um bom ponto de partida. Ajuda também comparar cada estrofe com o versículo que a inspirou e reparar onde Lutero acrescenta a sua interpretação.
Para quem quer entender o lugar dos hinos tradicionais entre os outros estilos de música cristã, o panorama está em gêneros da música cristã.
Fontes
- Portal Luterano (IECLB). HPD nº 97: Deus é castelo forte e bom (hipóteses de data, edições de 1528, 1529 e 1531, frase de Heine e obras de Bach, Mendelssohn e Meyerbeer).
- Segunda Igreja Batista em Goiânia. Salmo 46: Castelo forte é nosso Deus (Cantor Cristão nº 323).
- Centro White. Roteiro "O Espírito Ainda Fala" (2004) (Hinário Adventista nº 33).
- Letras. Castelo Forte, Harpa Cristã.
- Wikipedia. A Mighty Fortress Is Our God (traduções inglesas e edições antigas).




