Os cinco solas são cinco expressões latinas que resumem as convicções centrais da Reforma Protestante: sola Scriptura (somente a Escritura), sola fide (somente a fé), sola gratia (somente a graça), solus Christus (somente Cristo) e soli Deo gloria (glória somente a Deus). Cada palavra "somente" marca um ponto de discordância com a teologia católica do século 16.

Um detalhe surpreende quem estuda o tema: Lutero e Calvino nunca organizaram essas fórmulas numa lista de cinco. As expressões aparecem soltas nos escritos da época, mas o conjunto, do jeito que é ensinado hoje, só foi sistematizado por teólogos do século 20.

De onde vem a lista

As palavras "somente a fé" e "somente a graça" já aparecem nos reformadores. Filipe Melanchthon, colaborador de Lutero, escreveu em 1554 que "somente pela graça" e "somente pela fé" o ser humano é justificado. Mas a ideia de um conjunto fixo de "princípios da Reforma" é moderna.

Em 1916, o teólogo luterano Theodore Engelder falou em três princípios: Escritura, graça e fé. Ao longo do século 20, outros autores propuseram listas de três, quatro e cinco itens. A forma com cinco solas se popularizou no meio evangélico nas últimas décadas, especialmente em escolas teológicas reformadas.

Os cinco solas, um por um

Sola Scriptura: somente a Escritura

O que afirma: a Bíblia é a autoridade final em matéria de fé, acima da tradição da Igreja e das decisões de concílios e papas. Isso não significa rejeitar toda tradição. Os reformadores citavam muito os Pais da Igreja, como Agostinho, mas os colocavam abaixo da Bíblia.

Texto mais citado: "Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça" (2 Timóteo 3:16, ARA).

A outra posição: a Igreja Católica ensina que a Escritura e a Tradição formam um único depósito da fé, interpretado pelo Magistério. É o que diz a constituição Dei Verbum, do Concílio Vaticano II (1965), nos números 9 e 10. As igrejas ortodoxas também leem a Bíblia dentro da Tradição, mas sem um Magistério centralizado nos moldes católicos.

Sola fide: somente a fé

O que afirma: a pessoa é declarada justa diante de Deus pela fé em Cristo, e não pelas obras. As boas obras são fruto da salvação, não a sua causa.

Texto mais citado: "Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei" (Romanos 3:28, ARA). Na tradução alemã do Novo Testamento, de 1522, Lutero escreveu "somente pela fé" (allein durch den Glauben). A palavra "somente" não está no grego, e ele defendeu a escolha em 1530, na "Carta aberta sobre a tradução".

O texto que pesa do outro lado: "Verificais que uma pessoa é justificada por obras e não por fé somente" (Tiago 2:24, ARA). É o único lugar da Bíblia em que aparece a expressão "fé somente", e em sentido negativo. Lutero chegou a chamar Tiago de "epístola de palha" no prefácio de 1522, em comparação com as cartas de Paulo. Os intérpretes protestantes costumam responder que Paulo e Tiago falam de coisas diferentes: Paulo, da base da salvação; Tiago, da fé que se mostra viva nas obras.

Sola gratia: somente a graça

O que afirma: a salvação é um presente imerecido de Deus. O ser humano não contribui com nenhum mérito para recebê-la.

Texto mais citado: "Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie" (Efésios 2:8-9, ARA).

Ponto de atenção: este é o sola menos polêmico entre católicos e protestantes. O Concílio de Trento também ensinou que nada do que precede a justificação, nem a fé nem as obras, merece a graça. A divergência está no que acontece depois: para os católicos, a pessoa justificada coopera com a graça e pode crescer em justiça; para os reformadores, a justiça de Cristo é atribuída ao crente.

Solus Christus: somente Cristo

O que afirma: Cristo é o único mediador entre Deus e a humanidade. Sua morte basta para a salvação, sem necessidade de outros mediadores.

Textos mais citados: "Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem" (1 Timóteo 2:5, ARA) e Atos 4:12.

A outra posição: católicos e ortodoxos também afirmam que Cristo é o único mediador. Mas entendem que os santos e a Virgem Maria participam dessa mediação por intercessão, sem substituí-la. Os reformadores rejeitaram a invocação dos santos justamente por causa desse ponto.

Soli Deo gloria: glória somente a Deus

O que afirma: toda a vida, e não só o culto, existe para a glória de Deus. A fórmula ficou associada à tradição reformada, de João Calvino, e à ideia de que o trabalho comum também é vocação.

Textos mais citados: "Portanto, quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a glória de Deus" (1 Coríntios 10:31, ARA) e Romanos 11:36.

Curiosidade: Johann Sebastian Bach costumava assinar as partituras com as iniciais "S.D.G.", de Soli Deo Gloria.

Resumo em tabela

SolaÊnfase protestantePosição católica
EscrituraBíblia como autoridade finalEscritura e Tradição, interpretadas pelo Magistério
FéJustificação pela fé, sem obrasFé que age pela caridade; justificação também transforma
GraçaSalvação totalmente imerecidaGraça primeiro, com cooperação humana depois
CristoÚnico mediador, sem intercessão dos santosÚnico mediador, com intercessão dos santos
Glória a DeusToda a vida como cultoTambém afirmada, sem a carga polêmica

A tabela simplifica. Dentro do próprio protestantismo há diferenças importantes, como entre luteranos, reformados, metodistas e pentecostais, explicadas em origem das denominações cristãs.

A resposta de Trento e o diálogo de 1999

A resposta católica oficial veio no Concílio de Trento. Na quarta sessão (8 de abril de 1546), o Concílio tratou das Escrituras e da Tradição. Na sexta sessão (13 de janeiro de 1547), publicou o decreto sobre a justificação, que condenou a tese de que a fé sozinha justifica sem nenhuma cooperação da vontade.

Quatro séculos depois, o tom mudou. Em 31 de outubro de 1999, em Augsburgo, a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica assinaram a Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação. O texto afirma, em conjunto, que a pessoa é aceita por Deus somente pela graça, mediante a fé na obra de Cristo, e não por mérito próprio. Ele também declara que as condenações do século 16 não atingem o ensino da outra igreja como apresentado ali.

Os metodistas aderiram à declaração em 2006. Diferenças continuam, sobretudo sobre a autoridade da Escritura e da Igreja, mas o núcleo de "graça e fé" deixou de ser um muro intransponível.

Para continuar

O contexto em que essas ideias nasceram está em as 95 teses de Lutero e em causas e consequências da Reforma. Para ler os textos citados aqui no contexto, um bom começo é o estudo da carta aos Romanos.

Fontes