A carta aos Romanos é a mais longa das cartas do apóstolo Paulo e a primeira delas na ordem do Novo Testamento. Foi escrita por volta do ano 57 d.C., provavelmente em Corinto, para os cristãos de Roma, uma comunidade que Paulo ainda não conhecia pessoalmente. O tema central está nos versículos 16 e 17 do capítulo 1: o evangelho como poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, judeu ou não judeu.
Nenhum outro livro do Novo Testamento teve tanto peso nas grandes viradas da história da Igreja. Agostinho, Lutero e John Wesley contaram que suas vidas mudaram lendo Romanos. Por isso, entender a carta ajuda a entender também as divisões e os diálogos entre as igrejas.
Quem escreveu, quando e para quem
Autor. A carta se apresenta como de Paulo (Romanos 1:1) e foi ditada a um secretário chamado Tércio, que manda suas próprias saudações (16:22). A autoria paulina é aceita praticamente por todos os estudiosos, inclusive os mais críticos.
Data e lugar. Paulo diz que está a caminho de Jerusalém para levar uma oferta das igrejas da Macedônia e da Acaia (15:25-26). Ele também envia saudações de Gaio, seu anfitrião, e de Erasto, "tesoureiro da cidade" (16:23). Esses dados apontam para Corinto, perto do fim da terceira viagem missionária, entre 55 e 58 d.C. A portadora da carta deve ter sido Febe, da igreja de Cencreia, o porto de Corinto. Paulo a chama de "diákonos" (16:1), palavra traduzida como "serva" ou "diaconisa", conforme a Bíblia.
Destinatários. A igreja de Roma não foi fundada por Paulo e reunia cristãos de origem judaica e de origem gentia. Por volta do ano 49, o imperador Cláudio expulsou judeus de Roma, episódio citado em Atos 18:2 a propósito de Áquila e Priscila. Quando os judeus cristãos voltaram, encontraram comunidades com maioria gentia. Parte da carta, sobretudo os capítulos 14 e 15, trata das tensões entre esses grupos.
Propósito. Paulo queria seguir para a Espanha e esperava o apoio de Roma (15:24 e 15:28). A carta funciona como apresentação do seu evangelho a uma igreja que ouvia falar dele, e nem sempre bem (3:8).
A estrutura da carta em cinco partes
| Capítulos | Parte | Pergunta que responde |
|---|---|---|
| 1:1-17 | Abertura e tema | Qual é o evangelho de Paulo? |
| 1:18–4:25 | O problema e a solução | Todos pecaram; como alguém é declarado justo? |
| 5–8 | A nova vida | O que muda na vida de quem crê? |
| 9–11 | Israel no plano de Deus | As promessas de Deus a Israel falharam? |
| 12–16 | Vida em comunidade | Como viver isso na igreja e na sociedade? |
Uma dica de estudo é ler a carta inteira de uma vez antes de entrar nos detalhes. Em voz alta, leva pouco mais de uma hora. O método passo a passo de observar, interpretar e aplicar está em como estudar a Bíblia.
Os versículos-chave, parte por parte
O tema (1:16-17). "Pois não me envergonho do evangelho, porque é o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego; visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé" (ARA). A citação final vem de Habacuque 2:4.
O diagnóstico (3:23). "Pois todos pecaram e carecem da glória de Deus" (ARA). É o fecho de uma longa argumentação que começa em 1:18 e mostra que tanto gentios quanto judeus estão na mesma situação diante de Deus.
Abraão como exemplo (capítulo 4). Paulo cita Gênesis 15:6, "Abraão creu em Deus, e isso lhe foi imputado para justiça" (Romanos 4:3, ARA), para mostrar que a fé já era o caminho antes da Lei de Moisés.
Adão e Cristo (5:12-21). O paralelo entre o primeiro homem, por quem o pecado entrou no mundo, e Cristo, por quem veio a graça, é a base bíblica mais citada para a doutrina do pecado original.
A vida no Espírito (capítulo 8). O capítulo começa com "Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus" (8:1, ARA) e termina afirmando que nada pode separar o crente do amor de Deus (8:38-39). No meio está um dos versículos mais conhecidos da Bíblia, Romanos 8:28.
O mistério de Israel (11:25-29). Paulo afirma que "os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis" (11:29, ARA). O texto se tornou central no diálogo entre cristãos e judeus no século 20.
A vida prática (12:1-2). A virada para a ética começa com o pedido de que os leitores apresentem o corpo "como sacrifício vivo" e não se conformem com "este século" (ARA).
Os leitores que a carta transformou
- Agostinho (386). Em Milão, num jardim, Agostinho ouviu uma voz infantil dizer "toma e lê", abriu as cartas de Paulo e leu Romanos 13:13-14. Ele narra o episódio nas "Confissões", livro VIII, capítulo 12. A trajetória completa está em quem foi Agostinho de Hipona.
- Martinho Lutero (década de 1510). Lutero contou, num prefácio de 1545, que a expressão "justiça de Deus" em Romanos 1:17 o atormentava até entendê-la como a justiça que Deus concede pela fé. Essa leitura está na raiz da Reforma e dos cinco solas.
- John Wesley (1738). Em 24 de maio de 1738, numa reunião na rua Aldersgate, em Londres, Wesley ouviu a leitura do prefácio de Lutero a Romanos. Ele anotou no diário que sentiu o coração "estranhamente aquecido". A data é lembrada pelos metodistas.
- Karl Barth (1919). O comentário "A Carta aos Romanos", do teólogo suíço, marcou o início da chamada teologia dialética no século 20.
Onde as tradições leem diferente
Justificação. Protestantes leem Romanos 3 e 4 como base da justificação somente pela fé. Católicos leem os mesmos capítulos lembrando que a fé "atua pelo amor" (Gálatas 5:6) e que a justificação também transforma interiormente. A Declaração Conjunta de 1999, entre católicos e luteranos, aproximou as duas leituras.
Pecado original. A leitura de Romanos 5:12 por Agostinho, seguida pela tradição latina, entende que toda a humanidade herda a culpa de Adão. A tradição ortodoxa, a partir da leitura grega do mesmo versículo, prefere falar das consequências do pecado, como a morte e a inclinação ao mal, sem uma culpa herdada no mesmo sentido.
A "nova perspectiva" sobre Paulo. Desde o livro "Paul and Palestinian Judaism", de E. P. Sanders (1977), vários estudiosos, como James Dunn e N. T. Wright, argumentam que o judaísmo do século 1 não era uma religião de méritos. Para eles, as "obras da lei" de Romanos se referem sobretudo a marcas de identidade judaica, como a circuncisão e as regras de alimentação. A proposta é debatida tanto por protestantes tradicionais quanto por católicos.
Romanos 13 e o Estado. Os versículos 1 a 7 do capítulo 13, que pedem sujeição às autoridades, foram lidos de modos muito diferentes ao longo da história, da obediência quase total à defesa da resistência a governos injustos. O texto convive, no mesmo Novo Testamento, com Atos 5:29: "Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens" (ARA).
Como montar um estudo de Romanos em oito semanas
- 1:1-17, o tema da carta.
- 1:18–3:20, a condição humana.
- 3:21–4:25, a justificação e o exemplo de Abraão.
- Capítulos 5 e 6, Adão e Cristo e a nova vida.
- Capítulos 7 e 8, a Lei, o Espírito e a esperança.
- Capítulos 9 a 11, Israel e as promessas.
- Capítulos 12 e 13, a ética cristã.
- Capítulos 14 a 16, a convivência entre "fortes" e "fracos" e as saudações finais.
Para situar a carta entre os outros escritos de Paulo, veja o perfil de Paulo de Tarso e o guia do Novo Testamento.
Fontes
- Wikipedia. Epistle to the Romans e Epístola aos Romanos (data, destinatários, estrutura).
- Santa Sé. Nova Vulgata, Epistula ad Romanos.
- Wikipedia. Aldersgate Day (John Wesley, 24/05/1738).
- Wikipedia. New Perspective on Paul.
- Santo Agostinho. Confissões, livro VIII, cap. 12. Texto em inglês no New Advent.




