A música gospel no Brasil começou com hinos traduzidos por missionários no século 19, ganhou os primeiros discos nos anos 1940 e 1950, passou a ter composições e ritmos brasileiros nos anos 1970 e virou um mercado de massa a partir dos anos 1990. O marco inicial costuma ser o hinário Salmos e Hinos, de 1861, e o termo "gospel", importado dos Estados Unidos, só se popularizou no país no fim do século 20.

A linha do tempo abaixo reúne os fatos com data documentada. Onde há números de público ou vendas, eles são estimativas divulgadas na época, e assim são apresentados.

Século 19: os hinários

1855. O missionário escocês Robert Reid Kalley e sua esposa, Sarah Poulton Kalley, iniciam sua missão no Brasil. Fundam a Igreja Evangélica Fluminense, uma das primeiras igrejas evangélicas em língua portuguesa do país.

17 de novembro de 1861. Sai a primeira edição brasileira de Salmos e Hinos, com 50 cânticos: 18 salmos e 32 hinos, só com as letras, sem partitura. É considerada a primeira coletânea de hinos evangélicos em português organizada no Brasil e foi usada por várias denominações. Depois da morte de Robert, em 1888, Sarah continuou ampliando o hinário.

1891. Os batistas lançam o Cantor Cristão, que passaria por 37 edições e seria por cem anos o único hinário oficial da denominação. O missionário Salomão Ginsburg, que desembarcou no Rio em junho de 1890, é lembrado como o "pai do Cantor Cristão" e deixou 105 letras e traduções de hinos.

1920-1960: pentecostais e primeiros discos

1921-1922. As Assembleias de Deus, nascidas em Belém do Pará em 1911, usavam o Salmos e Hinos. Em 1921 surge o Cantor Pentecostal, com 44 hinos e 10 corinhos. Em 1922 é lançada a Harpa Cristã, com tiragem inicial de mil exemplares. A segunda edição, de 1923, já tinha 300 hinos; hoje são 640.

1948. Feliciano Amaral faz a primeira gravação da música evangélica no Brasil, em disco de 78 rotações.

1955. Luiz de Carvalho (1925-2015), nascido em Bauru, grava o primeiro LP de 33 rotações de um cantor evangélico no país. Seu filho Elias de Carvalho fundaria depois a gravadora Bompastor.

1968-1980: a virada brasileira

1968. O pastor norte-americano Jaime Kemp funda a missão Vencedores por Cristo (VPC), que escolhe a música como principal meio de evangelização. Até então, as igrejas protestantes cantavam quase só os hinos dos hinários.

1971. Depois de cinco compactos, o VPC grava o primeiro LP, Fale do Amor.

1975. Começa a série Louvor, do VPC, que chegaria ao décimo volume em 2003 e renovou o repertório congregacional.

1977. O VPC lança De Vento em Popa, primeiro disco com todas as músicas de autores brasileiros, como Sérgio Pimenta, Guilherme Kerr e Aristeu Pires, com bossa nova e samba-canção.

1979. Nasce no Rio de Janeiro o Rebanhão, banda fundada por Janires com músicos da Igreja Presbiteriana de Copacabana. O primeiro disco, Mais Doce que o Mel (1981), traz rock e pop para o meio evangélico e causa polêmica entre líderes religiosos.

1986-2003: gravadoras, prêmios e eventos de massa

13 de agosto de 1986. É fundada a gravadora MK Music, que se tornaria uma das maiores do segmento.

1994. Aline Barros lança "Consagração", que fica nove meses em primeiro lugar nas rádios evangélicas.

1995. A Rede Aleluia cria o Troféu FM 105, rebatizado de Troféu Talento em 1997. A premiação reuniu pop, rock, rap, black music e louvor até 2009 e foi suspensa por tempo indeterminado em 2010.

1997-1998. Surge o Diante do Trono, na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, com Ana Paula Valadão. O primeiro disco é gravado ao vivo num culto em 31 de janeiro de 1998.

1998. No mesmo ano, o padre Marcelo Rossi lança Músicas para Louvar o Senhor e se torna o rosto da música católica carismática, mostrando que o fenômeno da música cristã de massa não era só evangélico.

14 de julho de 2001. O Diante do Trono grava Preciso de Ti no Mineirão para cerca de 210 mil pessoas, recorde de público do estádio.

12 de julho de 2003. A gravação de Quero Me Apaixonar, no Campo de Marte, em São Paulo, reúne público estimado em mais de 2 milhões de pessoas.

2004-2025: Grammy, streaming e novas gerações

2004. O Grammy Latino cria a categoria de Melhor Álbum Cristão em Língua Portuguesa. Aline Barros se tornaria a recordista, com oito prêmios.

2009. Fernandinho lança Uma Nova História, gravado em Campos dos Goytacazes, que vende mais de 50 mil cópias na primeira semana.

2018. Gabriela Rocha lança o EP Céu. A faixa "Lugar Secreto" passa de 200 milhões de visualizações no YouTube em menos de um ano e simboliza a chegada do gospel à era do streaming.

2025. A Pró-Música Brasil informa que o mercado fonográfico do país faturou R$ 3,958 bilhões, com o Brasil em 8º lugar no ranking mundial. O relatório não divulga a fatia do gospel; o funcionamento desse mercado está em como funciona o mercado da música cristã.

Quatro mudanças que a linha do tempo mostra

Do hino traduzido à composição nacional. Por mais de um século, a igreja evangélica brasileira cantou sobretudo hinos ingleses e americanos traduzidos, como os de Fanny Crosby e Isaac Watts. A virada veio com o VPC e o Rebanhão, que passaram a usar ritmos brasileiros.

Do templo ao estádio. Os hinários foram feitos para o culto. A partir dos anos 1990, Diante do Trono e Marcelo Rossi mostraram que a música cristã reunia multidões fora das igrejas.

Do selo de igreja à grande gravadora. Os primeiros discos saíram por selos ligados ao próprio meio evangélico, como a Bompastor e a MK. Mas o Rebanhão já teve, por vários anos, contrato com grandes gravadoras de fora do circuito religioso, e Marcelo Rossi lançou Paz (2001) pela Universal Music e Anjos (2002) pela Sony Music. A fronteira entre mercado cristão e mercado geral ficou cada vez mais porosa.

Do rótulo "evangélico" ao "gospel". No Brasil, "gospel" virou sinônimo de quase toda música evangélica popular, uso diferente do americano. As diferenças entre os estilos estão em gêneros da música cristã, os perfis dos nomes citados em artistas que definiram a música cristã, e a origem das igrejas que deram base a essa música em origem das denominações cristãs.

Fontes