Paulo de Tarso foi um judeu fariseu do século 1 que perseguiu os primeiros cristãos, passou a seguir Jesus depois de uma experiência no caminho de Damasco e se tornou o principal missionário da igreja nascente entre os não judeus. Treze das 27 obras do Novo Testamento levam seu nome, e as mais antigas delas são os textos cristãos mais antigos que conhecemos.
Sua vida é contada em duas fontes que nem sempre coincidem nos detalhes: o livro de Atos dos Apóstolos, escrito por Lucas, e as próprias cartas de Paulo. Os estudiosos costumam dar preferência às cartas quando as duas divergem, por serem testemunho direto.
Ficha rápida
| Nome | Saulo (hebraico) e Paulo (latim); Atos usa "Paulo" a partir de 13:9 |
| Origem | Tarso, na Cilícia, atual sul da Turquia (Atos 21:39) |
| Formação | Fariseu (Filipenses 3:5), instruído por Gamaliel segundo Atos 22:3 |
| Cidadania | Romano de nascimento, segundo Atos 22:28 |
| Profissão | Fabricante de tendas (Atos 18:3) |
| Cartas | 13 atribuídas a ele, sete de autoria amplamente aceita |
| Morte | Em Roma, segundo a tradição, sob Nero (década de 60) |
Do perseguidor ao apóstolo
Saulo aparece pela primeira vez na morte de Estêvão, o primeiro mártir cristão: as testemunhas deixam as vestes "aos pés de um jovem chamado Saulo" (Atos 7:58). Em seguida, ele vai de casa em casa prendendo seguidores de Jesus (Atos 8:3). Nas cartas, ele mesmo admite que "perseguia a igreja de Deus" (Gálatas 1:13).
A reviravolta é narrada três vezes em Atos (9:1-19; 22:6-16; 26:12-18). A caminho de Damasco, Saulo vê uma luz, ouve a voz de Jesus perguntando "por que me persegues?" e fica cego por três dias, até ser recebido e batizado por Ananias. Nas cartas, Paulo descreve o episódio de forma mais breve, como uma revelação de Jesus ressuscitado que o chamou para anunciá-lo entre os gentios (Gálatas 1:15-16; 1 Coríntios 15:8).
Depois disso, segundo Gálatas 1:17-18, ele passa um período na Arábia, volta a Damasco e só três anos depois vai a Jerusalém encontrar Pedro.
As viagens, com a data que ancora tudo
Atos 13 a 21 descreve o que a tradição organizou em três viagens missionárias, por Chipre, pela Galácia, pela Macedônia (Filipos, Tessalônica), pela Grécia (Atenas, Corinto) e pela Ásia Menor (Éfeso, onde ficou cerca de dois anos, Atos 19:10). A numeração em "primeira, segunda e terceira viagem" é uma convenção de leitores, não do texto.
Uma das poucas datas firmes da vida de Paulo vem da arqueologia. Atos 18:12 diz que, em Corinto, Paulo foi levado ao tribunal de Gálio, procônsul da Acaia. Uma inscrição encontrada em Delfos, na Grécia, com uma carta do imperador Cláudio, permite situar o mandato de Gálio por volta de 51-52 d.C. É a partir desse ponto que os estudiosos montam a cronologia do apóstolo.
O Concílio de Jerusalém e a briga com Pedro
Com a entrada de muitos não judeus nas comunidades, surgiu a pergunta: eles precisavam ser circuncidados e guardar toda a Lei de Moisés? Atos 15 narra a reunião em Jerusalém, com Pedro e Tiago, que decidiu que não, pedindo apenas algumas observâncias aos gentios (Atos 15:19-20, 28-29).
Paulo conta sua versão em Gálatas 2. Ali aparece um episódio raro: em Antioquia, ele confronta Pedro publicamente por ter deixado de comer com cristãos gentios por pressão de outros judeus cristãos (Gálatas 2:11-14). É um dos poucos relatos bíblicos de desacordo aberto entre líderes da igreja primitiva.
As treze cartas
As cartas atribuídas a Paulo se dividem, no debate acadêmico, em três grupos:
- Autoria amplamente aceita (7): Romanos, 1 e 2 Coríntios, Gálatas, Filipenses, 1 Tessalonicenses e Filemom.
- Autoria debatida (3): Efésios, Colossenses e 2 Tessalonicenses.
- Cartas pastorais (3): 1 e 2 Timóteo e Tito, as mais questionadas por críticos.
As igrejas cristãs continuam recebendo as 13 como Escritura, e muitos estudiosos conservadores defendem a autoria paulina de todas. A Carta aos Hebreus, que antigas traduções atribuíam a Paulo, não traz o nome do autor e hoje raramente é atribuída a ele. Para situar essas cartas no conjunto, veja o guia do Novo Testamento.
O que Paulo conta sobre si mesmo
Em 2 Coríntios 11:23-28, Paulo faz uma lista das dificuldades: cinco vezes recebeu dos judeus "quarenta açoites menos um", três vezes foi açoitado com varas, uma vez apedrejado e três vezes sofreu naufrágio. É um dos trechos mais autobiográficos do Novo Testamento.
Logo depois, em 2 Coríntios 12:7-10, ele fala do "espinho na carne", que pediu três vezes para ser retirado e ouviu como resposta: "A minha graça te basta" (12:9, ARA). O texto não diz o que era. As hipóteses vão de doença nos olhos (lida a partir de Gálatas 4:15) a perseguição constante, e nenhuma pode ser comprovada.
Morte em Roma: o que é Bíblia e o que é tradição
Atos termina com Paulo em prisão domiciliar em Roma, por dois anos, pregando "sem impedimento" (Atos 28:30-31). O livro não narra sua morte.
O martírio vem de fontes posteriores. A Primeira Carta de Clemente, escrita de Roma no fim do século 1, menciona o testemunho de Paulo até a morte. Eusébio de Cesareia, no século 4, registra a tradição de que ele foi decapitado em Roma sob Nero. A Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma, foi erguida no local tradicional de seu sepultamento.
Como cada tradição lê Paulo
Católicos e ortodoxos celebram Pedro e Paulo juntos em 29 de junho, e a Igreja Católica lembra a conversão de Paulo em 25 de janeiro, data que encerra a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos no hemisfério norte.
Protestantes têm em Paulo o centro da Reforma. Foi lendo Romanos 1:17, "o justo viverá por fé", que Martinho Lutero formulou a doutrina da justificação pela fé, e foi ouvindo a leitura do prefácio de Lutero à Carta aos Romanos, em Londres, em 24 de maio de 1738, que John Wesley disse ter sentido o coração "estranhamente aquecido".
Na pesquisa acadêmica, desde o livro "Paul and Palestinian Judaism", de E. P. Sanders (1977), ganhou força a chamada "nova perspectiva sobre Paulo", que lê suas cartas mais a partir do judaísmo do século 1 e menos a partir das disputas do século 16. O debate segue aberto entre teólogos de várias linhas.
Para conhecer o ambiente das comunidades que Paulo fundou, leia como viviam os primeiros cristãos.
Fontes
- Bible Gateway. Atos 9 (ARA) e 2 Coríntios 11-12 (ARA).
- Wikipedia. Gallio inscription.
- Wikipedia. Authorship of the Pauline epistles.
- Wikipedia. New Perspective on Paul.
- Basílica Papal de São Paulo Fora dos Muros. Site oficial.
- Crossway. What Was Paul's Thorn in the Flesh? (2 Corinthians 12).




