O Novo Testamento é a segunda parte da Bíblia cristã: 27 livros escritos em grego no século 1, depois da morte de Jesus, que narram sua vida e o começo das primeiras igrejas. Diferentemente do Antigo Testamento, a lista é a mesma para católicos, protestantes e a maioria das igrejas ortodoxas.

O que pouca gente sabe é que a ordem em que os livros aparecem na Bíblia não é a ordem em que foram escritos. Os textos mais antigos não são os Evangelhos, e sim as cartas de Paulo.

Como os 27 livros estão organizados

Nas Bíblias, o Novo Testamento é dividido em quatro blocos:

  1. Evangelhos (4): Mateus, Marcos, Lucas e João.
  2. História (1): Atos dos Apóstolos, continuação do Evangelho de Lucas, escrita pelo mesmo autor (compare Lucas 1:1-4 com Atos 1:1).
  3. Cartas (21): treze atribuídas a Paulo, de Romanos a Filemom; Hebreus, de autor não identificado no próprio texto; e as sete chamadas "gerais" ou "católicas" (no sentido de universais): Tiago, 1 e 2 Pedro, 1, 2 e 3 João e Judas.
  4. Profecia (1): Apocalipse, atribuído a um João que escreve da ilha de Patmos (Apocalipse 1:9).

As cartas de Paulo estão organizadas por tamanho, da maior (Romanos) para a menor (Filemom), e não por data.

A ordem em que os livros foram escritos

Nenhum livro do Novo Testamento traz data. As estimativas abaixo são as mais citadas por estudiosos acadêmicos; autores mais conservadores costumam situar os Evangelhos e Atos antes do ano 70, quando o Templo de Jerusalém foi destruído pelos romanos.

Período aproximadoLivrosObservação
c. 50-511 TessalonicensesConsiderado o texto cristão mais antigo preservado
c. 50-58Gálatas, 1 e 2 Coríntios, Romanos, Filipenses, FilemomCartas de Paulo cuja autoria é amplamente aceita
c. 65-70MarcosPara a maioria dos estudiosos, o primeiro Evangelho
c. 80-90Mateus, Lucas e AtosMateus e Lucas usam boa parte do material de Marcos
c. 90-100João, cartas de João, ApocalipseIrineu de Lyon, no século 2, situa o Apocalipse no fim do reinado de Domiciano (81-96)

Isso significa que a fé na ressurreição já aparece por escrito cerca de vinte anos depois da crucificação. Em 1 Coríntios 15:3-8, Paulo transmite uma lista de testemunhas que diz ter "recebido" antes, o que leva muitos estudiosos a considerar esse trecho uma fórmula ainda mais antiga que a própria carta.

Grego koiné, a língua comum

Todo o Novo Testamento foi escrito em grego koiné, o grego popular falado no Mediterrâneo oriental. Jesus e os discípulos falavam aramaico no dia a dia, e algumas palavras aramaicas ficaram no texto, como "Talitá cumi" (Marcos 5:41) e "Abba" (Marcos 14:36).

Escrever em grego permitiu que as cartas circulassem de Jerusalém a Roma. As citações do Antigo Testamento, por isso, muitas vezes seguem a Septuaginta, a tradução grega das Escrituras judaicas, explicada no guia do Antigo Testamento.

Como os 27 livros viraram uma lista fechada

Nenhum concílio "criou" o Novo Testamento de uma vez. O reconhecimento foi gradual, a partir do uso dos textos nas igrejas.

  • Século 2: os quatro Evangelhos e as cartas de Paulo já são citados como autoridade por autores como Irineu de Lyon, que por volta de 180 defende que há quatro Evangelhos, nem mais nem menos.
  • Fim do século 2 (data debatida): o Fragmento Muratoriano, uma lista em latim, menciona a maior parte dos livros atuais e rejeita outros textos.
  • 367: Atanásio, bispo de Alexandria, publica sua 39ª Carta Festal, a primeira lista conhecida com exatamente os 27 livros de hoje.
  • 393 e 397: sínodos regionais em Hipona e Cartago, no norte da África, confirmam a mesma lista para as igrejas da região.

Alguns livros demoraram mais para ser aceitos em todas as regiões, como Hebreus, Tiago, 2 Pedro, 2 e 3 João, Judas e Apocalipse. A Igreja Ortodoxa Etíope mantém, até hoje, uma coleção mais ampla.

Os manuscritos que sobreviveram

Os originais (chamados autógrafos) se perderam, como acontece com praticamente todo texto antigo. O que existe são cópias, e em quantidade incomum para a Antiguidade: os catálogos acadêmicos registram mais de 5.800 manuscritos gregos do Novo Testamento, completos ou fragmentários.

Três peças ajudam a dimensionar isso:

  • Papiro P52: um pedaço de João 18 do tamanho de um cartão de crédito, guardado na John Rylands Library, em Manchester. Costuma ser datado da primeira metade do século 2, embora a datação exata seja discutida.
  • Papiros Chester Beatty e Bodmer: códices do século 2 e 3 com cartas de Paulo e grandes trechos dos Evangelhos.
  • Codex Sinaiticus: do século 4, contém o Novo Testamento completo mais antigo que se conhece. Está digitalizado e pode ser consultado on-line.

As diferenças entre as cópias existem e são estudadas por uma disciplina própria, a crítica textual. É por causa dela que algumas Bíblias trazem notas como "os manuscritos mais antigos não contêm este trecho", por exemplo no fim de Marcos (16:9-20) e em João 7:53-8:11. O tema é aprofundado no guia de traduções da Bíblia.

Por onde começar a leitura

Para quem nunca leu, uma ordem prática é Marcos (o Evangelho mais curto), depois Atos, depois uma carta curta de Paulo, como Filipenses. O principal autor das cartas tem um perfil próprio em quem foi Paulo de Tarso, e métodos de leitura estão em como estudar a Bíblia.

Fontes