Discipulado é o processo de aprender a seguir Jesus na companhia de outras pessoas: alguém mais experiente na fé, um pequeno grupo ou uma comunidade inteira. A palavra vem de "discípulo", que no Novo Testamento traduz o grego mathetés, "aprendiz". Não se trata só de aprender ideias, mas de aprender um modo de vida observando quem já o vive.
A forma de organizar esse aprendizado mudou muito ao longo de dois mil anos. A linha do tempo abaixo mostra os modelos que mais influenciaram as igrejas de hoje.
A base nos Evangelhos
Marcos descreve o chamado dos doze com uma frase que resume o método: Jesus os escolheu "para que estivessem com ele" e para enviá-los a pregar (Marcos 3:14, NVI). Primeiro a convivência, depois a missão. Os discípulos viram Jesus orar, discutir, curar e descansar antes de fazerem o mesmo.
Ser discípulo também tinha custo: "Aquele que não carrega a sua cruz e não me segue não pode ser meu discípulo" (Lucas 14:27, NVI). E no fim do Evangelho de Mateus, a tarefa passa adiante: "vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu ordenei a vocês" (Mateus 28:19-20, NVI). No grego, o verbo principal da frase é "fazer discípulos"; ir, batizar e ensinar descrevem como isso acontece.
Paulo acrescenta a ideia de continuidade em 2 Timóteo 2:2 (NVI): "As palavras que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie-as a homens fiéis que sejam também capazes de ensiná-las a outros". No mesmo versículo aparecem quatro elos: Paulo, Timóteo, os "homens fiéis" e os "outros".
Linha do tempo do discipulado organizado
Séculos 2 a 5: o catecumenato
Nas primeiras gerações, quem queria entrar na Igreja não era batizado de imediato. Passava por um período de preparação, o catecumenato, com ensino, acompanhamento de padrinhos, orações e ritos em etapas, que culminava no batismo, geralmente na Vigília Pascal.
A prática perdeu força com a generalização do batismo de crianças. O Concílio Vaticano II pediu sua volta: "Restaure-se o catecumenado dos adultos, com vários graus" (Sacrosanctum Concilium, n. 64, 1963). É a base do caminho de iniciação cristã de adultos usado hoje em paróquias católicas.
Séculos 4 a 6: o pai espiritual e a vida monástica
Nos desertos do Egito e da Síria, monges procuravam um abba (pai) mais experiente para orientá-los. Esse modelo de direção espiritual pessoal continua vivo: no mundo ortodoxo, na figura do pai espiritual; no católico, na direção espiritual. Comunidades monásticas, como as que seguem a Regra de São Bento, organizaram o aprendizado da fé em comunidade, com horários e responsabilidades.
1742: as classes de John Wesley
Em 15 de fevereiro de 1742, em Bristol, na Inglaterra, a sociedade metodista discutia como pagar a dívida de um prédio. Um membro, o capitão Foy, propôs que cada um desse um centavo por semana e se ofereceu para visitar onze dos mais pobres e pagar por eles se preciso. John Wesley dividiu então a sociedade em "classes" de cerca de doze pessoas, cada uma com um líder.
O que começou como cobrança virou acompanhamento espiritual. As visitas deram lugar a um encontro semanal para oração e conversa sobre a vida de cada membro. As classes se tornaram uma marca do metodismo e são uma das raízes dos pequenos grupos atuais.
1933: Dawson Trotman e os Navegadores
Na Califórnia, Dawson Trotman (1906-1956) começou a se encontrar com um marinheiro da Marinha americana, Les Spencer, para estudar a Bíblia e memorizar versículos. Spencer passou a fazer o mesmo com colegas, e o grupo cresceu a bordo do encouraçado USS West Virginia. Daí nasceu a organização The Navigators (os Navegadores), hoje presente em mais de 100 países.
O modelo de Trotman é o "um a um": uma pessoa acompanha outra, que depois acompanha uma terceira, como em 2 Timóteo 2:2. Trotman morreu em 18 de junho de 1956, aos 50 anos, no lago Schroon, em Nova York, ao tentar salvar uma jovem que se afogava.
1937: Bonhoeffer e o preço do discipulado
No mesmo período, na Alemanha nazista, o pastor luterano Dietrich Bonhoeffer dirigia um seminário clandestino da Igreja Confessante em Finkenwalde, fechado pela Gestapo em agosto de 1937. Em novembro daquele ano, publicou Nachfolge ("seguimento"), um comentário ao Sermão do Monte que saiu no Brasil com o título Discipulado.
No livro, Bonhoeffer critica a "graça barata", isto é, o perdão anunciado sem chamado à obediência, e defende que seguir Jesus envolve a vida inteira. Bonhoeffer foi preso em 1943 e executado pelo regime nazista em abril de 1945. O livro segue entre os textos cristãos mais lidos do século 20, inclusive fora do protestantismo.
Modelos de hoje lado a lado
| Modelo | Como funciona | Mais comum em |
|---|---|---|
| Um a um (mentoria) | Encontros semanais de duas pessoas, com leitura bíblica e oração | Igrejas evangélicas, movimentos estudantis |
| Pequenos grupos ou células | 6 a 15 pessoas que se reúnem em casas | Igrejas evangélicas e pentecostais, comunidades católicas |
| Catequese de adultos | Caminho em etapas até o batismo, a primeira comunhão ou a crisma | Igreja Católica |
| Direção espiritual | Conversas periódicas com um padre, pastor ou leigo preparado | Tradições católica, ortodoxa e anglicana |
| Trilhas de membresia | Cursos com material definido para novos membros | Igrejas protestantes em geral |
Os modelos não se excluem. Muitas igrejas combinam um curso inicial com a participação em um pequeno grupo e encontros pessoais. Como isso se encaixa na estrutura da igreja é tema de ministérios da igreja local.
O que discipulado não é
- Não é só frequentar culto. O culto é importante, mas é comunicação de um para muitos; discipulado pede proximidade e conversa.
- Não é obediência cega a um líder. O objetivo é que a pessoa amadureça e um dia acompanhe outras. Relações em que o líder controla decisões pessoais, finanças ou relacionamentos do discípulo são um sinal de alerta, e várias igrejas já revisaram práticas desse tipo.
- Não é tarefa exclusiva de pastor. Na maioria das igrejas, qualquer cristão maduro pode acompanhar outro. O papel do pastor está descrito em o que faz um pastor.
Como começar
- Procure alguém, não um programa. Peça a uma pessoa da sua igreja, de vida coerente, para se encontrar com você por alguns meses.
- Combine o básico. Frequência (semanal ou quinzenal), duração (uma hora) e prazo (três meses, por exemplo).
- Leiam um livro bíblico juntos. Marcos é uma boa escolha. O método de estudo bíblico ajuda a conduzir a conversa.
- Incluam as práticas pessoais. Contem como anda o tempo devocional de cada um, sem cobrança.
- Pensem no próximo elo. No fim, pergunte quem você poderia acompanhar. É a lógica de 2 Timóteo 2:2.
Fontes
- Bíblia Online. Marcos 3 (NVI), Lucas 14 (NVI), Mateus 28 (NVI) e 2 Timóteo 2 (NVI).
- Santa Sé. Constituição Sacrosanctum Concilium, n. 64.
- Wesley Center Online. John Wesley the Methodist, cap. IX: Society and Class.
- Christian History Institute. Quote of February 15 (diário de Wesley, 1742).
- The Navigators. History of The Navigators.
- Wikipedia. Dawson Trotman.
- Mundo Cristão. Dietrich Bonhoeffer, Discipulado (trecho em PDF).




