Os primeiros cristãos se reuniam em casas, no primeiro dia da semana, para ler as Escrituras, orar, partilhar uma refeição e celebrar a ceia em memória de Jesus. Não tinham templos próprios, viviam como minoria no Império Romano e enfrentaram perseguições intermitentes até 313, quando o Edito de Milão garantiu liberdade de culto.
Sabemos disso não por reconstruções posteriores, mas por documentos dos três primeiros séculos. A seguir, o que cada fonte mostra e o que ela não permite afirmar.
O que diz o livro de Atos
O resumo mais antigo está em Atos 2:42-47: os convertidos "perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações" (2:42, ARA). O texto acrescenta que partilhavam bens e se reuniam no Templo e nas casas.
As cartas de Paulo confirmam o modelo doméstico. Ele manda saudações à "igreja que se reúne na casa" de Priscila e Áquila (Romanos 16:5; 1 Coríntios 16:19) e de Ninfa (Colossenses 4:15). Em 1 Coríntios 11, critica a comunidade porque, na refeição comum, os ricos comiam antes e os pobres ficavam com fome.
A Didaquê: um manual de comunidade
A Didaquê, ou "Instrução dos Doze Apóstolos", é um texto curto, datado pela maioria dos estudiosos entre o fim do século 1 e o início do século 2. Foi redescoberto em 1873, num manuscrito em Constantinopla.
Ela funciona como um manual prático. Orienta batizar "em água corrente", em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, e permite derramar água três vezes sobre a cabeça quando não houver rio (capítulo 7). Manda jejuar às quartas e sextas-feiras (capítulo 8), rezar o Pai-Nosso três vezes ao dia e traz orações para a eucaristia (capítulos 9 e 10).
O olhar de um governador romano
Por volta do ano 112, Plínio, o Jovem, governador da Bitínia (norte da atual Turquia), escreveu ao imperador Trajano perguntando como tratar os cristãos denunciados a ele (Cartas, livro 10, carta 96). É um dos primeiros relatos não cristãos sobre o grupo.
Segundo o que apurou nos interrogatórios, os cristãos se reuniam antes do amanhecer num dia fixo, cantavam um hino "a Cristo como a um deus" e se comprometiam por juramento a não roubar, não cometer adultério e não faltar com a palavra. Depois, voltavam a se reunir para uma refeição comum e simples. Plínio diz ter torturado duas escravas chamadas "ministras" (ministrae), sinal de que mulheres exerciam funções na comunidade.
Trajano respondeu que os cristãos não deviam ser procurados ativamente, mas punidos se denunciados e se recusassem a sacrificar aos deuses.
Um domingo por volta do ano 155
O filósofo cristão Justino, nascido em Flávia Neápolis, na Samaria, e morto em Roma por volta de 165, descreveu o culto dominical numa defesa da fé dirigida ao imperador Antonino Pio (Primeira Apologia, capítulo 67). Na ordem que ele apresenta:
- Leitura das "memórias dos apóstolos" (os Evangelhos) ou dos profetas, "enquanto o tempo permite".
- Exortação de quem preside, aplicando o que foi lido.
- Orações de todos, em pé.
- Apresentação do pão e do vinho com água, oração de ação de graças e o "Amém" da assembleia.
- Distribuição aos presentes e envio aos ausentes pelos diáconos.
- Coleta voluntária, entregue a quem preside para ajudar órfãos, viúvas, doentes, presos e estrangeiros.
A sequência de leitura, pregação, oração e ceia continua reconhecível, com variações, nas liturgias católica, ortodoxa e de muitas igrejas protestantes. As diferentes formas de entender a ceia hoje estão em batismo, ceia e ordenanças.
A casa-igreja de Dura-Europos
A arqueologia confirma o modelo doméstico. Em Dura-Europos, cidade fortificada na fronteira romana com a Pérsia, no leste da atual Síria, arqueólogos franceses e da Universidade Yale escavaram, nos anos 1930, uma casa adaptada para uso cristão por volta de 232-233 d.C.
Uma das salas tinha uma pia batismal sob um arco e pinturas murais: o Bom Pastor, a cura do paralítico, Jesus andando sobre as águas e mulheres diante de um túmulo. É a mais antiga casa-igreja identificada. As paredes pintadas foram levadas para a Galeria de Arte da Universidade Yale, nos Estados Unidos.
Catacumbas e perseguição: o que é mito
As catacumbas de Roma eram cemitérios subterrâneos, usados por cristãos e também por judeus, e não esconderijos onde se celebrava o culto às escondidas. Sua origem como cemitérios cristãos organizados remonta ao século 2 e 3.
A perseguição também não foi constante. Houve episódios locais e violentos, como o de Nero em Roma (64), e campanhas imperiais sistemáticas, como as de Décio (250) e Diocleciano (a partir de 303). Entre elas, as comunidades viveram longos períodos de relativa tolerância, crescendo e até construindo locais de reunião.
O que impressionava os de fora
Tertuliano, autor cristão de Cartago, escreveu por volta de 197 que os pagãos diziam dos cristãos: "Vejam como eles se amam" (Apologético, 39). O comentário vinha associado à caixa comum para sustentar pobres, órfãos, idosos, náufragos e presos.
Décadas depois, durante epidemias no século 3, bispos como Dionísio de Alexandria relataram cristãos cuidando de doentes, inclusive não cristãos. Essas práticas são citadas por historiadores como um dos fatores do crescimento do grupo antes de Constantino.
O que mudou em 313
O Edito de Milão, de Constantino e Licínio, deu liberdade de culto aos cristãos e mandou devolver propriedades confiscadas. Começou a construção de grandes basílicas, e o culto saiu das casas. A sequência dos séculos seguintes está na linha do tempo da história do cristianismo, e o principal missionário dessa primeira geração tem perfil próprio em quem foi Paulo de Tarso. Para comparar com as igrejas de hoje, veja como funciona uma igreja.
Fontes
- Bible Gateway. Atos 2 (ARA).
- New Advent. The Didache (tradução inglesa).
- Christian History Institute. Pliny's Letter to Trajan.
- New Advent. Justino Mártir, Primeira Apologia, capítulo 67.
- New Advent. Tertuliano, Apologético, capítulo 39.
- Wikipedia. Dura-Europos church.
- Christian History Institute. Persecution in the Early Church: Did You Know?.
- Wikipedia. Catacombs of Rome.




