Os Grandes Despertamentos foram ondas de avivamento religioso no mundo protestante de língua inglesa, sobretudo nas colônias britânicas da América do Norte e depois nos Estados Unidos. O primeiro ocorreu nas décadas de 1730 e 1740; o segundo, entre o fim do século 18 e a década de 1830; o terceiro, na segunda metade do século 19. Eles enfatizavam a conversão pessoal, a pregação emocional e a vida cristã fervorosa.

Os efeitos atravessaram o oceano. As sociedades missionárias nascidas desse ambiente enviaram, no século 19, muitos dos primeiros missionários protestantes ao Brasil.

Os três despertamentos lado a lado

PrimeiroSegundoTerceiro
Períodoc. 1730-1745c. 1795-1835c. 1850-1900
OndeColônias da Nova Inglaterra e do centro; paralelo na Grã-BretanhaFronteira oeste (Kentucky, Tennessee) e Nordeste dos EUACidades industriais dos EUA e Grã-Bretanha
NomesJonathan Edwards, George Whitefield, John WesleyBarton Stone, Charles Finney, Lyman BeecherDwight L. Moody, Walter Rauschenbusch
FormatoSermões em igrejas e ao ar livreAcampamentos (camp meetings) e reuniões de avivamentoCampanhas urbanas, escolas bíblicas, movimento estudantil
EfeitosDivisões nas igrejas coloniais, novas faculdadesCrescimento de batistas e metodistas, reformas sociaisMissões mundiais, Evangelho Social

O Primeiro Despertamento: Edwards e Whitefield

Em 1734 e 1735, a cidade de Northampton, em Massachusetts, viveu uma onda de conversões sob a pregação do pastor congregacional Jonathan Edwards. Ele relatou o episódio em "A Faithful Narrative of the Surprising Work of God" (1737), texto que circulou na Inglaterra e na Escócia.

O fenômeno ganhou escala com o anglicano inglês George Whitefield, que percorreu as colônias a partir de 1739 pregando ao ar livre para multidões. Benjamin Franklin, que não era religioso praticante, registrou em sua autobiografia o efeito dos sermões de Whitefield na Filadélfia.

O sermão mais lembrado do período é "Sinners in the Hands of an Angry God" ("Pecadores nas mãos de um Deus irado"), pregado por Edwards em 8 de julho de 1741, em Enfield, Connecticut. Costuma ser citado pelas imagens fortes do juízo, mas Edwards também foi um teólogo e filósofo sofisticado, autor de "Religious Affections" (1746), sobre como distinguir experiências religiosas autênticas.

Na Inglaterra, o movimento correspondente é o avivamento evangélico de John e Charles Wesley. A experiência de John Wesley em Aldersgate, Londres, em 24 de maio de 1738, é considerada o ponto de partida do metodismo.

O Segundo Despertamento: acampamentos e reformas

Em agosto de 1801, um encontro de vários dias em Cane Ridge, no Kentucky, reuniu milhares de pessoas para pregações, cânticos e celebração da ceia. Esse formato de camp meeting se espalhou pela fronteira americana e favoreceu sobretudo metodistas e batistas, que se tornaram as maiores denominações protestantes dos Estados Unidos.

No Nordeste, o advogado convertido Charles Finney sistematizou as "novas medidas" de avivamento, como reuniões prolongadas e o "banco dos ansiosos" para quem queria se converter. O despertamento alimentou movimentos de reforma social, entre eles o abolicionismo e a campanha contra o álcool.

Também nasceram aí as grandes sociedades missionárias. A American Board of Commissioners for Foreign Missions foi criada em 1810, depois de uma reunião de oração de estudantes do Williams College em 1806, conhecida como Haystack Prayer Meeting.

O Terceiro Despertamento: cidades e missões

Na segunda metade do século 19, o centro do avivamento passou às cidades. O evangelista Dwight L. Moody fez campanhas nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha e fundou em Chicago a escola que hoje é o Moody Bible Institute (1886).

No mesmo ano, numa conferência de estudantes promovida por Moody em Mount Hermon, Massachusetts, nasceu o movimento que se organizaria em 1888 como Student Volunteer Movement. Ele mobilizou milhares de universitários para as missões com o lema "a evangelização do mundo nesta geração". Ao mesmo tempo, o pastor batista Walter Rauschenbusch formulou o Evangelho Social, que aplicava a fé às condições de trabalho e à pobreza urbana, em livros como "Christianity and the Social Crisis" (1907).

Parte dos historiadores inclui nesse ciclo o avivamento do País de Gales (1904-1905) e o da Rua Azusa, em Los Angeles (1906), origem do pentecostalismo moderno.

O debate dos historiadores

O termo "Grande Despertamento" foi popularizado no século 19, e não pelos próprios participantes. Em 1982, o historiador Jon Butler, da Universidade Yale, publicou um artigo argumentando que o Primeiro Despertamento seria em boa parte uma "ficção interpretativa": uma série de avivamentos locais agrupados depois sob um rótulo único.

A maioria dos especialistas continua usando os termos, mas com cautela, reconhecendo diferenças regionais e o fato de que avivamentos semelhantes ocorreram também na Europa continental, como o pietismo alemão.

O que os despertamentos têm a ver com o Brasil

Os missionários norte-americanos que fundaram as igrejas presbiterianas, metodistas e batistas no Brasil no século 19 vinham desse ambiente de avivamento, com ênfase em conversão pessoal, leitura da Bíblia, escolas e combate a vícios. Essa marca aparece na história de missões históricas e de como surgiram as denominações no país.

O pentecostalismo, herdeiro indireto do Terceiro Despertamento, chegou em 1910 e 1911 e mudou o perfil religioso do país. Personagens desse percurso aparecem em missionários que marcaram a história, e o quadro geral está na linha do tempo do cristianismo.

Fontes