As fontes mais citadas sobre perseguição religiosa são de quatro tipos: órgãos da ONU (o relator especial sobre liberdade de religião ou crença), órgãos de governos (como a USCIRF, nos Estados Unidos), centros de pesquisa sem vínculo religioso (como o Pew Research Center) e organizações cristãs (como a Portas Abertas, com a World Watch List, e a Ajuda à Igreja que Sofre, a ACN). Cada uma mede uma coisa diferente, e por isso os números raramente coincidem.
A tabela abaixo resume as diferenças. Depois vêm os dados mais recentes de cada fonte e um roteiro para ler rankings.
Comparação rápida
| Fonte | Quem mantém | O que mede | Formato | Cobre só cristãos? |
|---|---|---|---|---|
| Relator Especial da ONU | Conselho de Direitos Humanos da ONU | Violações da liberdade de religião ou crença | Relatórios temáticos e visitas a países, sem ranking | Não |
| USCIRF | Comissão federal dos EUA | Violações graves em outros países | Relatório anual com recomendações de classificação | Não |
| Pew Research Center | Centro de pesquisa independente | Restrições de governos e hostilidades sociais | Dois índices de 0 a 10 para 198 países | Não |
| World Watch List | Portas Abertas (Open Doors) | Perseguição a cristãos | Ranking anual dos 50 países mais graves | Sim |
| Liberdade Religiosa no Mundo | ACN, fundação pontifícia católica | Liberdade religiosa de todos os grupos | Relatório a cada dois anos, 196 países | Não |
Órgãos oficiais
O relator especial da ONU
O cargo foi criado em 1986 pela então Comissão de Direitos Humanos da ONU, com o nome de relator sobre intolerância religiosa, e ganhou o nome atual em 2000. Hoje é nomeado pelo Conselho de Direitos Humanos. Desde agosto de 2022, a relatora é Nazila Ghanea. O relator não faz ranking: visita países, recebe denúncias, envia comunicações aos governos e apresenta relatórios temáticos.
USCIRF e Departamento de Estado dos EUA
A Lei de Liberdade Religiosa Internacional de 1998 criou duas coisas: um escritório no Departamento de Estado, que publica um relatório anual sobre cada país, e a USCIRF, comissão bipartidária independente. A USCIRF recomenda quais países devem ser designados "países de preocupação particular" (CPC) ou incluídos numa "lista especial de observação". A designação, porém, cabe ao governo americano, por delegação ao secretário de Estado. Por isso, a lista da comissão e a lista oficial nem sempre coincidem.
Esses relatórios refletem uma política externa nacional. São fontes úteis e detalhadas, mas não neutras no sentido de um órgão multilateral.
Centro de pesquisa: Pew Research Center
O Pew publica anualmente um estudo sobre restrições à religião em 198 países e territórios, com dois índices:
- Índice de Restrições Governamentais: leis, políticas e ações de autoridades que limitam crenças e práticas religiosas.
- Índice de Hostilidades Sociais: assédio, violência de multidões, terrorismo e ataques motivados por religião, praticados por indivíduos e grupos, não pelo Estado.
Os pesquisadores codificam fatos documentados em mais de uma dúzia de fontes públicas internacionais. Na edição publicada em junho de 2026, com dados de 2023, o número de países com hostilidades sociais "altas" ou "muito altas" subiu para 55, terceiro ano seguido de alta; os países com restrições governamentais altas ou muito altas foram 58, um a menos que o pico de 59, registrado em 2022.
A grande vantagem do Pew é separar perseguição do Estado e perseguição da sociedade, e cobrir todas as religiões. A desvantagem é a defasagem: os dados chegam com cerca de dois anos e meio de atraso.
Organizações cristãs
Portas Abertas e a World Watch List
A Portas Abertas (Open Doors, no original) é uma organização cristã que publica todo ano a World Watch List, ranking dos 50 países onde, segundo sua metodologia, cristãos enfrentam a perseguição mais severa. A lista é montada com dados de pesquisadores e contatos locais em cerca de 100 países e combina pressão em várias esferas da vida com episódios de violência.
Na edição de 2026, a organização estima que mais de 388 milhões de cristãos sofrem níveis altos de perseguição e discriminação, e que mais de 315 milhões enfrentam perseguição muito alta ou extrema nos 50 países do ranking. Os dez primeiros são Coreia do Norte, Somália, Iêmen, Sudão, Eritreia, Síria, Nigéria, Paquistão, Líbia e Irã. No período coberto, a lista registra 4.849 cristãos mortos, 4.712 detidos e 3.632 igrejas e propriedades cristãs atacadas.
ACN e o relatório Liberdade Religiosa no Mundo
A Ajuda à Igreja que Sofre (ACN) é uma organização católica criada em 1947 e reconhecida como fundação pontifícia desde 2011. Seu relatório Liberdade Religiosa no Mundo sai a cada dois anos e, embora feito por uma entidade católica, avalia a situação de todos os grupos religiosos. A edição de 2025, sobre o período de janeiro de 2023 a dezembro de 2024, analisou 196 países e classificou 24 como de "perseguição" e 38 como de "discriminação". Segundo o relatório, 64,7% da população mundial, quase 5,4 bilhões de pessoas, vivem em países com violações graves ou muito graves da liberdade religiosa.
Por que os números não batem
- Universo: a World Watch List mede só cristãos; Pew, ACN, ONU e USCIRF medem todas as religiões.
- Conceito: "perseguição" na Portas Abertas inclui pressão social e familiar, não só violência; o Pew separa governo e sociedade; a ACN distingue "perseguição" de "discriminação".
- Período: cada fonte cobre um intervalo diferente, e o Pew trabalha com dados mais antigos.
- Missão: organizações cristãs têm uma causa declarada, apoiar cristãos perseguidos, e isso não invalida seus dados, mas deve ser dito ao leitor.
Como ler um ranking: um exemplo
Imagine a manchete "Nigéria é o 7º país que mais persegue cristãos". A leitura cuidadosa pergunta:
- De quem é o ranking? Da World Watch List 2026, da Portas Abertas.
- O que a posição mede? Uma pontuação de perseguição a cristãos segundo a metodologia da organização, não um número oficial do governo nigeriano nem da ONU.
- O que dizem as outras fontes? Vale conferir os relatórios da ACN, do Departamento de Estado e os índices do Pew para o mesmo país, que podem descrever também a violência sofrida por outros grupos religiosos.
- Quem é o agente? Em muitos países, a violência vem de grupos armados, não do governo. A distinção do Pew entre restrição estatal e hostilidade social ajuda aqui.
A frase fiel seria: "Na World Watch List 2026, da organização cristã Portas Abertas, a Nigéria aparece em 7º lugar". Com fonte e ano, o leitor sabe o que está lendo.
Para continuar
O conceito jurídico por trás desses relatórios está em o que é liberdade religiosa. Para ler outros números sobre religião com o mesmo cuidado, veja como interpretar pesquisas sobre o cristianismo. O quadro geral está no panorama do cristianismo hoje, e a história de quem levou a fé a regiões hoje sob pressão aparece em missionários que marcaram a história.
Fontes
- Wikipedia. United Nations Special Rapporteur on Freedom of Religion or Belief.
- Wikipedia. United States Commission on International Religious Freedom.
- Pew Research Center. More Countries Had Elevated Levels of Social Hostilities Involving Religion in 2023 (2026).
- Pew Research Center. Methodology for Global Restrictions on Religion.
- Open Doors. World Watch List 2026.
- Vatican News. ACN Religious Freedom Report: 5 billion people face violations (2025).
- Aid to the Church in Need. Religious Freedom in the World Report; Wikipedia. Aid to the Church in Need (periodicidade do relatório).




