Quando acontece um desastre, as igrejas costumam agir em dois níveis ao mesmo tempo: a comunidade local abre templos, recolhe doações e organiza voluntários nas primeiras horas, enquanto redes humanitárias cristãs, como a Cáritas, a ACT Alliance, a World Vision e a Adra, entram com logística, recursos e equipes profissionais. As duas frentes dependem uma da outra.
Este explicador mostra como essa resposta costuma se organizar, quem é quem entre as organizações e que regras elas se comprometem a seguir.
Uma prática que vem do Novo Testamento
A ajuda organizada entre comunidades cristãs aparece já em Atos. Quando o profeta Ágabo anuncia uma grande fome "durante o reinado de Cláudio", os discípulos de Antioquia, "cada um segundo as suas possibilidades, decidiram providenciar ajuda para os irmãos que viviam na Judeia", e enviaram as ofertas por Barnabé e Saulo (Atos 11:28-30, NVI). Paulo depois organiza uma coleta das igrejas da Macedônia e da Acaia para os cristãos de Jerusalém (2 Coríntios 8 e 9).
Paulo também amplia o alcance: "façamos o bem a todos, especialmente aos da família da fé" (Gálatas 6:10, NVI). As organizações cristãs modernas de ajuda costumam citar essa abertura para justificar o atendimento sem distinção de religião.
As fases de uma resposta
| Fase | Período aproximado | O que a igreja local faz | O que as redes fazem |
|---|---|---|---|
| Socorro imediato | Primeiras horas e dias | Abre templos como abrigo, recolhe água, comida e roupas, organiza voluntários | Avaliam necessidades e enviam equipes |
| Emergência | Semanas | Mantém abrigos, faz triagem de doações, oferece escuta e apoio espiritual | Distribuem kits, garantem água e saneamento, fazem transferências de dinheiro |
| Recuperação | Meses | Acompanha famílias, ajuda na limpeza e na volta para casa | Financiam reconstrução e geração de renda |
| Prevenção | Anos | Forma brigadas e redes de contato | Trabalham com redução de risco e defesa de políticas públicas |
Na prática, as fases se sobrepõem. O que muda é o tipo de ajuda mais útil: no início, mão de obra e itens básicos; depois, dinheiro e acompanhamento.
Quem é quem entre as redes cristãs
Cáritas: a rede católica
A Caritas Internationalis é uma confederação de 162 organizações católicas nacionais que atuam em mais de 200 países e territórios. A primeira Cáritas nacional foi fundada na Alemanha em 1897, por Lorenz Werthmann, e a confederação internacional foi constituída em dezembro de 1951, com sede em Roma.
No Brasil, a Cáritas Brasileira foi fundada em 1956 pela CNBB, por iniciativa de Dom Helder Camara, então secretário-geral da conferência. É um organismo da CNBB e tem uma rede de 203 entidades-membro e 13 regionais, o que permite chegar a dioceses e paróquias do país inteiro.
ACT Alliance: a rede protestante e ortodoxa
A ACT Alliance (Action by Churches Together) foi criada em 1º de janeiro de 2010, a partir de redes de igrejas que trabalhavam juntas desde 1995 e 2003, no ambiente do Conselho Mundial de Igrejas. Em seu site, informa ter 164 membros, atuação em 127 países, mais de 30 mil funcionários e voluntários e mais de 2 bilhões de dólares mobilizados por ano pelos membros. Ela se apresenta como a maior coalizão de organizações protestantes e ortodoxas de base religiosa nas áreas humanitária e de desenvolvimento.
Organizações evangélicas independentes
- World Vision: fundada em 1950 por Robert (Bob) Pierce e Kyung-Chik Han para cuidar de crianças na Coreia. Hoje atua em cerca de 100 países, com foco em desenvolvimento comunitário e infância.
- Samaritan's Purse: fundada em 1970 pelo pastor batista Bob Pierce, o mesmo da World Vision, e presidida desde 1979 por Franklin Graham, filho de Billy Graham. Tem sede em Boone, na Carolina do Norte, e atua em emergências.
- Adra: a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais é ligada à Igreja Adventista do Sétimo Dia e tem uma unidade brasileira, a Adra Brasil.
A diferença entre elas não está no tipo de trabalho, mas no vínculo institucional: a Cáritas é parte da estrutura da Igreja Católica; a ACT Alliance reúne igrejas e agências ligadas ao movimento ecumênico; World Vision e Samaritan's Purse são organizações paraeclesiásticas, sem vínculo com uma denominação.
As regras que as organizações assumem
Desastres atraem gente bem-intencionada e também abusos. Por isso, desde 1994 muitas organizações humanitárias, religiosas ou não, aderem ao Código de Conduta para o Movimento Internacional da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho e para ONGs em Ações de Socorro em Desastres. Entre seus princípios estão:
- a ajuda é priorizada apenas pela necessidade;
- a ajuda não será usada para promover uma posição política ou religiosa específica;
- as organizações não devem servir de instrumento da política externa de governos;
- cultura e costumes locais devem ser respeitados, e a resposta deve se apoiar nas capacidades locais.
O segundo ponto é o mais sensível para organizações cristãs. A adesão é voluntária, e o próprio código depende de cada signatário cumpri-lo. Na prática, a regra separa duas coisas: a igreja pode oferecer oração e apoio espiritual a quem quiser, mas a entrega de comida, abrigo ou remédio não pode depender da religião de quem recebe.
Um caso brasileiro: as enchentes no Rio Grande do Sul (2024)
As enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul mostraram as duas frentes funcionando ao mesmo tempo, em várias tradições:
- Católicos: em Caxias do Sul, a partir de 2 de maio, o ginásio do Seminário Diocesano Nossa Senhora Aparecida virou centro de doações, com centenas de voluntários na triagem, em parceria com a Fundação Caxias e o poder público. A Cáritas diocesana atuou na organização, e a diocese abriu um fundo para doações em dinheiro destinado às paróquias das áreas mais afetadas.
- Assembleias de Deus: a Assembleia de Deus no Brasil lançou a campanha "SOS Rio Grande do Sul", com toneladas de alimentos e milhares de peças de roupa; templos não atingidos acolheram desabrigados, embora vários outros tenham sido inundados.
- Batistas: a Convenção Batista Brasileira enviou missionários e voluntários para Canoas, São Leopoldo e Porto Alegre.
- Adventistas: a Adra ofereceu apoio alimentar, lavagem de roupas e suporte psicológico, com uma carreta capaz de preparar 1,5 mil refeições por dia.
Não houve um comando único entre essas igrejas. Cada rede atuou com sua estrutura, muitas vezes ao lado da Defesa Civil e das prefeituras.
Como ajudar com segurança
- Prefira dinheiro a objetos depois dos primeiros dias. Doações em espécie entopem centros de triagem; dinheiro permite comprar o que falta perto do local.
- Doe a quem tem CNPJ e presta contas, como a Cáritas, a Adra ou o fundo de uma diocese ou convenção conhecida. Desconfie de chaves Pix pessoais divulgadas em correntes.
- Ofereça mão de obra pela sua igreja, que costuma estar ligada a uma rede maior e sabe onde há falta de gente.
- Pense no depois. A atenção do público some em semanas, mas a reconstrução leva meses.
O trabalho social contínuo das igrejas está descrito em ministérios da igreja local. A relação entre fé e ação pública é tema de cristianismo e debate público, e a cooperação entre igrejas aparece em como funcionam os eventos ecumênicos.
Fontes
- Bíblia Online. Atos 11 (NVI) e Gálatas 6 (NVI).
- Wikipedia. Caritas Internationalis.
- Cáritas Brasileira. História.
- ACT Alliance. Who we are.
- Wikipedia. World Vision International e Samaritan's Purse.
- Wikipedia. Code of Conduct for the International Red Cross and Red Crescent Movement and NGOs in Disaster Relief.
- Vatican News. Diocese de Caxias do Sul: a ação da Igreja no cuidado aos atingidos pelas enchentes no RS.
- Comunhão. Igrejas evangélicas fazem ações de solidariedade no RS.




