Os livros cristãos essenciais para começar são os clássicos que leitores de várias tradições continuam lendo séculos depois: Confissões, de Agostinho; A Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis; O Peregrino, de John Bunyan; e, no século 20, Cristianismo Puro e Simples, de C. S. Lewis. Para quem nunca leu nenhum, Lewis costuma ser a porta de entrada mais fácil.

Critérios da lista. Entraram obras que (1) continuam sendo reeditadas e estudadas muito tempo depois de publicadas, (2) são lidas fora da própria denominação do autor e (3) representam juntas as tradições católica, ortodoxa e protestante. Best-sellers recentes ficaram de fora porque ainda não passaram pelo teste do tempo.

Antiguidade e Idade Média

1. Confissões, Agostinho de Hipona

  • Escrito: entre 397 e 400, em latim, em 13 livros.
  • Tradição: comum a católicos e protestantes.
  • Nível: médio; os últimos livros são filosóficos.

Agostinho conta a própria juventude, a busca intelectual e a conversão, tudo em forma de oração dirigida a Deus. É considerado uma das primeiras e mais influentes autobiografias espirituais do Ocidente. Quem quiser começar pela vida do autor encontra o resumo em quem foi Agostinho de Hipona.

2. A Imitação de Cristo, Tomás de Kempis

  • Escrito: por volta de 1418-1427, em latim, nos Países Baixos.
  • Tradição: católica, ligada ao movimento da Devotio Moderna.
  • Nível: fácil; capítulos curtos.

Dividido em quatro livros de conselhos para a vida espiritual, talvez seja a obra devocional cristã mais lida depois da Bíblia. Entre a primeira edição impressa, de 1471-1472, e 1650, teve 745 edições. Funciona bem em leitura de um capítulo por dia, como sugerimos em como montar um tempo devocional.

Reforma, Contrarreforma e Barroco

3. Castelo Interior, Teresa d'Ávila

  • Escrito: 1577.
  • Tradição: católica; Teresa (1515-1582) reformou a ordem carmelita.
  • Nível: médio.

Escrito para as irmãs carmelitas, descreve a alma como um castelo com sete moradas, que representam etapas da vida de oração até a união com Deus. É uma das obras centrais da mística cristã.

4. Sermões, Padre Antônio Vieira

  • Destaque: Sermão da Sexagésima, pregado na Capela Real de Lisboa, provavelmente em 1655.
  • Tradição: católica; Vieira (1608-1697) foi jesuíta e viveu boa parte da vida no Brasil.
  • Nível: difícil; português do século 17.

A Sexagésima abre a série de volumes dos sermões e funciona como um manual sobre a arte de pregar, a partir da parábola do semeador. É leitura obrigatória da literatura em língua portuguesa e mostra a fé cristã no centro da cultura do Brasil colonial.

5. O Peregrino, John Bunyan

  • Publicado: 1678.
  • Tradição: protestante (Bunyan era pregador não conformista, fora da Igreja da Inglaterra).
  • Nível: fácil a médio; é uma alegoria em forma de viagem.

Bunyan começou a escrevê-lo na prisão do condado de Bedford, onde estava por pregar fora da Igreja da Inglaterra. O personagem Cristão sai da Cidade da Destruição rumo à Cidade Celestial e encontra figuras como Evangelista e o Gigante Desespero. Foi traduzido para mais de 200 línguas e nunca deixou de ser impresso.

Séculos 19 e 20

6. Relatos de um Peregrino Russo (anônimo)

  • Publicado: em Kazan, Rússia, em 1884.
  • Tradição: ortodoxa.
  • Nível: fácil.

Um peregrino tenta entender como cumprir o "orai sem cessar" de 1 Tessalonicenses 5:17 (ACF) e aprende de um mestre espiritual a Oração de Jesus: "Senhor Jesus Cristo, tem piedade de mim". Não se sabe se é o relato de uma pessoa real ou uma narrativa didática. Serve de introdução à Oração de Jesus, prática muito presente na espiritualidade ortodoxa.

7. Ortodoxia, G. K. Chesterton

  • Publicado: 1908.
  • Tradição: anglicana na época; lido por católicos e protestantes.
  • Nível: médio; estilo cheio de paradoxos e humor.

Chesterton o chamou de "autobiografia espiritual": é o relato de como ele chegou à fé cristã. Escrito quando o autor ainda era anglicano, 14 anos antes de se tornar católico, virou um clássico da apologética cristã.

8. Discipulado, Dietrich Bonhoeffer

  • Publicado: 1937, com o título alemão Nachfolge ("seguimento").
  • Tradição: luterana; Bonhoeffer foi um dos fundadores da Igreja Confessante, que se opôs à submissão das igrejas ao nazismo.
  • Nível: médio.

Comentando o Sermão do Monte, Bonhoeffer opõe a "graça barata", perdão sem arrependimento nem seguimento de Cristo, à "graça custosa". O autor foi preso pela Gestapo em abril de 1943 e enforcado no campo de concentração de Flossenbürg em 9 de abril de 1945, semanas antes do fim da guerra na Europa.

9. Cristianismo Puro e Simples, C. S. Lewis

  • Publicado: 1952, a partir de palestras de rádio feitas na BBC entre 1941 e 1944.
  • Tradição: anglicana, mas escrito de propósito para cristãos de qualquer denominação.
  • Nível: fácil.

Lewis apresenta argumentos para a existência de Deus, o núcleo comum da fé cristã e a ética cristã, sem entrar nas disputas entre igrejas. Por isso continua popular entre cristãos de várias denominações. Do mesmo autor, Cartas de um Diabo a Seu Aprendiz (1942) e As Crônicas de Nárnia (1950-1956), série que vendeu cerca de 120 milhões de exemplares em 47 línguas, mostram a fé por meio da ficção.

10. Uma Vida com Propósito, Rick Warren

  • Publicado: 2002.
  • Tradição: evangélica.
  • Nível: fácil; 40 capítulos para 40 dias.

É a exceção recente da lista: ficou mais de 90 semanas na lista de mais vendidos do New York Times e, segundo o autor e a editora Zondervan, passou de 50 milhões de exemplares em mais de 85 línguas até 2020. Apresenta o que o autor descreve como os cinco propósitos de Deus para a vida humana.

Como escolher por onde começar

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Fontes