Os autores cristãos mais lidos ao longo dos séculos têm algo em comum: escreveram para pessoas comuns, não só para teólogos, e muitas vezes a partir de experiências extremas, como prisão, conversão tardia ou perseguição. A lista abaixo reúne 14 nomes de diferentes tradições, com a obra mais indicada para um primeiro contato.

A ideia não é eleger os "melhores", e sim dar um mapa. Para recomendações organizadas por necessidade de leitura (luto, dúvida, vida de oração), veja livros cristãos essenciais.

O mapa em uma tabela

AutorÉpocaTradiçãoComece por
Agostinho de Hipona354-430Igreja antiga (referência para católicos e protestantes)Confissões
Tomás de Kempisc. 1380-1471CatólicaA Imitação de Cristo
Teresa de Ávila1515-1582CatólicaCastelo Interior
Padre Antônio Vieira1608-1697Católica (jesuíta)Sermão da Sexagésima
Blaise Pascal1623-1662CatólicaPensamentos
John Bunyan1628-1688BatistaO Peregrino
Fiódor Dostoiévski1821-1881OrtodoxaOs Irmãos Karamázov
G. K. Chesterton1874-1936Anglicano, depois católicoOrtodoxia
C. S. Lewis1898-1963AnglicanaCristianismo Puro e Simples
Dietrich Bonhoeffer1906-1945LuteranaDiscipulado
A. W. Tozer1897-1963Aliança Cristã e MissionáriaÀ Procura de Deus (The Pursuit of God)
John Stott1921-2011Anglicana evangélicaA Cruz de Cristo
Henri Nouwen1932-1996CatólicaA Volta do Filho Pródigo
Adélia Prado1935-CatólicaBagagem (poesia)

Antiguidade e Idade Média

Agostinho escreveu as "Confissões" por volta de 397-400, já bispo de Hipona, no norte da África. O livro é uma longa oração dirigida a Deus em que ele relata a juventude, a busca filosófica e a conversão em Milão, em 386. A frase do livro 1, "nosso coração está inquieto enquanto não repousa em ti", é uma das mais citadas da literatura cristã. A vida dele está em quem foi Agostinho de Hipona.

Tomás de Kempis, cônego regular nos Países Baixos, é o autor tradicionalmente atribuído de "A Imitação de Cristo", escrita no início do século 15. Composta de capítulos curtos sobre humildade e vida interior, é um dos livros cristãos mais traduzidos depois da Bíblia, lido por católicos e também por protestantes como John Wesley.

Séculos 16 e 17: místicos, pregadores e um prisioneiro

Teresa de Ávila reformou a ordem carmelita na Espanha e descreveu a vida de oração como uma caminhada por sete "moradas" em "Castelo Interior" (1577). Em 1970, tornou-se a primeira mulher declarada doutora da Igreja.

Padre Antônio Vieira nasceu em Lisboa em 1608, cresceu em Salvador e foi o maior pregador da língua portuguesa no século 17. O "Sermão da Sexagésima" (1655) é uma aula sobre a própria pregação; o "Sermão de Santo Antônio aos Peixes" (1654), pregado em São Luís, critica a exploração dos indígenas pelos colonos. Foi processado pela Inquisição e defendeu publicamente a liberdade dos indígenas.

Blaise Pascal, matemático e físico francês, deixou anotações para uma defesa da fé cristã que foram publicadas após sua morte como "Pensamentos" (1670). É dele a ideia de que "o coração tem razões que a razão desconhece".

John Bunyan, funileiro e pregador batista, escreveu "O Peregrino" (primeira parte em 1678) depois de passar 12 anos preso, na maior parte do tempo, por pregar sem licença da Igreja oficial da Inglaterra. A alegoria da viagem de Cristão até a Cidade Celestial é um dos livros mais publicados da língua inglesa.

Séculos 19 e 20: romance, apologética e resistência

Fiódor Dostoiévski não era teólogo, mas sua ficção é uma das maiores reflexões cristãs ortodoxas sobre culpa, liberdade e perdão. "Os Irmãos Karamázov" (1880) inclui o capítulo do Grande Inquisidor e as conversas do monge Zósima.

G. K. Chesterton, jornalista inglês, publicou "Ortodoxia" em 1908, ainda anglicano, como relato de como chegou à fé. Converteu-se ao catolicismo em 1922. Sua escrita paradoxal influenciou diretamente C. S. Lewis.

C. S. Lewis, professor em Oxford e Cambridge, voltou ao cristianismo em 1931, depois de anos de ateísmo. "Cristianismo Puro e Simples" (1952) reúne palestras transmitidas pela rádio BBC durante a Segunda Guerra. Também é autor de "As Crônicas de Nárnia" (1950-1956).

Dietrich Bonhoeffer, pastor luterano alemão, publicou "Discipulado" em 1937, com a crítica à "graça barata", o perdão sem mudança de vida. Participou da resistência ao nazismo, foi preso em 1943 e executado no campo de Flossenbürg em 9 de abril de 1945.

A. W. Tozer, pastor nos Estados Unidos, escreveu "The Pursuit of God" (1948), publicado em português com títulos como "À Procura de Deus". É um texto curto e intenso sobre vida devocional, muito lido em igrejas evangélicas brasileiras.

Autores recentes

John Stott, pastor da All Souls Church, em Londres, e um dos idealizadores do Pacto de Lausanne (1974), escreveu "A Cruz de Cristo" (1986), considerado sua obra mais importante.

Henri Nouwen, padre holandês que deixou a carreira em Harvard para viver numa comunidade da L'Arche com pessoas com deficiência intelectual, escreveu "A Volta do Filho Pródigo" (1992) a partir da contemplação do quadro de Rembrandt sobre Lucas 15.

Adélia Prado, poeta mineira de Divinópolis, estreou com "Bagagem" (1976), elogiado por Carlos Drummond de Andrade. Sua poesia mistura cotidiano doméstico e fé católica. Recebeu em 2024 o Prêmio Camões, o mais importante da língua portuguesa.

Como ler autores de outras tradições

Ler um autor de outra igreja não exige concordar com tudo. Muitos protestantes leem Agostinho e Teresa de Ávila; muitos católicos leem Lewis e Bonhoeffer. Vale ler sabendo de onde o autor fala e anotar o que é específico da tradição dele. Mais nomes estão em quem é quem no cristianismo e em teólogos contemporâneos.

Fontes