O Antigo Testamento é a primeira e maior parte da Bíblia cristã: o conjunto de livros escritos antes de Jesus, em hebraico e, em alguns trechos, aramaico. Ele tem 39 livros nas Bíblias protestantes, 46 nas católicas e um número ainda maior em várias igrejas ortodoxas. Para os judeus, o mesmo núcleo de textos forma a Bíblia Hebraica, chamada Tanakh, organizada em outra ordem.
Essa diferença de contagem não é detalhe técnico. Ela resume dois mil anos de história sobre quais livros contam como Escritura, e cada tradição tem razões próprias para a sua lista.
As quatro divisões das Bíblias cristãs
As Bíblias cristãs agrupam o Antigo Testamento por gênero literário, não pela ordem em que os livros foram escritos.
Pentateuco (a Lei). Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. Vão da criação (Gênesis 1) até a morte de Moisés diante da terra prometida (Deuteronômio 34), passando pela saída do Egito e pela entrega dos Dez Mandamentos no Sinai (Êxodo 20).
Livros históricos. De Josué a Ester nas Bíblias protestantes. Narram a ocupação de Canaã, o período dos juízes, a monarquia de Saul, Davi e Salomão, a divisão do reino após a morte de Salomão (1 Reis 12), o exílio na Babilônia e o retorno a Jerusalém, contado em Esdras e Neemias.
Livros poéticos e sapienciais. Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cântico dos Cânticos. Os 150 Salmos funcionavam como livro de cânticos do Templo e continuam sendo rezados na liturgia judaica e cristã.
Livros proféticos. Os "maiores" (Isaías, Jeremias, Lamentações, Ezequiel e Daniel) e os doze "menores" (de Oseias a Malaquias). Os adjetivos se referem ao tamanho dos livros, não à importância dos profetas.
O mesmo conjunto na Bíblia Hebraica
O Tanakh reúne em três partes os mesmos livros que formam o Antigo Testamento protestante. O nome é uma sigla formada pelas iniciais delas:
- Torá (Lei): os cinco livros do Pentateuco.
- Neviim (Profetas): inclui Josué, Juízes, Samuel e Reis, chamados "profetas anteriores", e os livros proféticos propriamente ditos.
- Ketuvim (Escritos): Salmos, Provérbios, Jó, Rute, Ester, Daniel, Esdras-Neemias, Crônicas e outros.
Na contagem judaica tradicional são 24 livros, porque Samuel, Reis e Crônicas contam como um só cada, Esdras e Neemias formam um livro e os doze profetas menores formam outro. O conteúdo é o mesmo dos 39 livros protestantes. A ordem também muda: o Tanakh termina em Crônicas, com o decreto de Ciro permitindo a volta a Jerusalém, enquanto as Bíblias cristãs terminam em Malaquias, que anuncia a vinda de um mensageiro (Malaquias 4:5).
Quantos livros tem o Antigo Testamento em cada tradição
| Tradição | Livros no Antigo Testamento | O que muda |
|---|---|---|
| Judaísmo (Tanakh) | 24 (contagem própria) | Mesmo conteúdo do cânon protestante, agrupado de outro modo |
| Protestantes | 39 | Segue o conteúdo da Bíblia Hebraica |
| Católicos | 46 | Acrescenta Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc, além de trechos gregos de Ester e Daniel |
| Ortodoxos (grega e russa) | 49 ou mais, conforme a igreja | Acrescentam, entre outros, 1 Esdras, 3 Macabeus, a Oração de Manassés e o Salmo 151 |
| Ortodoxa Etíope (Tewahedo) | Lista mais ampla | Inclui, por exemplo, 1 Enoque e Jubileus |
O Catecismo da Igreja Católica registra a lista oficial católica: 46 escritos para o Antigo Testamento ("45, se se contar Jeremias e as Lamentações como um só") e 27 para o Novo (parágrafo 120).
A Septuaginta e a origem da diferença
A disputa começa antes do cristianismo. A partir do século 3 a.C., judeus de língua grega em Alexandria, no Egito, traduziram as Escrituras hebraicas para o grego. Essa tradução ficou conhecida como Septuaginta (ou LXX), por causa de uma tradição segundo a qual setenta e poucos tradutores teriam participado do trabalho.
A Septuaginta circulou com livros e trechos que não fazem parte da Bíblia Hebraica, como Sabedoria e os livros dos Macabeus. Os primeiros cristãos, que falavam grego, usavam muito essa versão: boa parte das citações do Antigo Testamento no Novo segue a redação grega, e não a hebraica.
Como cada tradição decidiu
Igreja Católica. O Concílio de Trento, em sua quarta sessão, em 8 de abril de 1546, definiu formalmente a lista de livros, incluindo os sete deuterocanônicos. O termo "deuterocanônico" (do "segundo cânon") indica que a aceitação desses livros foi discutida por mais tempo, não que tenham autoridade menor para os católicos.
Reformadores protestantes. Martinho Lutero, na Bíblia alemã completa de 1534, reuniu esses livros num apêndice e os apresentou como úteis e bons para ler, mas não equiparados à Sagrada Escritura. A Confissão de Fé de Westminster (1646), referência dos presbiterianos, foi mais longe: afirma que os livros chamados apócrifos não são inspirados e não fazem parte do cânon. A Igreja Anglicana adotou uma posição intermediária no artigo VI dos Trinta e Nove Artigos: eles são lidos "como exemplo de vida", mas não servem para estabelecer doutrina.
Igrejas ortodoxas. Mantêm a Septuaginta como texto de referência do Antigo Testamento e incluem livros adicionais, com algumas variações entre as igrejas. É por isso que não existe um número único de livros para "a" Bíblia ortodoxa.
Cada lado tem argumentos históricos. Protestantes lembram que esses livros não estão na Bíblia Hebraica; católicos e ortodoxos lembram que eles eram lidos pela Igreja desde os primeiros séculos.
O que os Manuscritos do Mar Morto mostraram
Entre 1947 e 1956, foram encontrados em cavernas perto de Qumran, junto ao Mar Morto, milhares de fragmentos de manuscritos judaicos copiados entre o século 3 a.C. e o século 1 d.C. Entre eles há trechos de todos os livros da Bíblia Hebraica, com exceção de Ester.
O destaque é o Grande Rolo de Isaías, praticamente completo e cerca de mil anos mais antigo do que os manuscritos hebraicos completos conhecidos até então. Comparado com o texto usado nas Bíblias atuais, ele mostra variações de grafia e de detalhe, mas o mesmo livro. Em Qumran também apareceram fragmentos de Tobias e Eclesiástico, sinal de que esses textos circulavam entre judeus antes da era cristã.
Como ler o Antigo Testamento hoje
Quem nunca leu o Antigo Testamento costuma travar em Levítico. Uma ordem mais amigável é começar por Gênesis e Êxodo, seguir para 1 e 2 Samuel, ler Salmos e Provérbios em paralelo e só depois entrar nos profetas, com uma introdução histórica à mão. Para métodos de leitura, veja como estudar a Bíblia.
Também ajuda saber a tradução que se está usando, já que as Bíblias católicas e protestantes diferem justamente nessa parte. O comparativo está em traduções da Bíblia em português. E a continuação da história, com os Evangelhos e as cartas, está no guia do Novo Testamento.
Fontes
- Santa Sé. Catecismo da Igreja Católica, parágrafos 50-141 (cânon, parágrafo 120).
- Israel Antiquities Authority. The Leon Levy Dead Sea Scrolls Digital Library.
- Wikipedia. Biblical canon (quadro comparativo dos cânones judaico, católico, protestante e ortodoxos).
- Confissão de Fé de Westminster (1646), capítulo 1. Texto em inglês no Ligonier Ministries.
- Sociedade Bíblica do Brasil. A Bíblia em português.




