Não existe uma única "Bíblia em português": existem dezenas de traduções, feitas em épocas diferentes, com métodos diferentes e para públicos diferentes. As mais usadas no Brasil hoje são a Almeida Revista e Corrigida (ARC), a Almeida Revista e Atualizada (ARA), a Nova Almeida Atualizada (NAA), a Nova Versão Internacional (NVI) e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) entre evangélicos, e a Ave-Maria, a Bíblia de Jerusalém e a Bíblia da CNBB entre católicos.

A escolha certa depende do uso: estudo detalhado, leitura corrida, liturgia ou primeiro contato com o texto. Abaixo está a história de como chegamos a tantas versões e uma comparação prática entre elas.

Linha do tempo: das primeiras traduções às versões atuais

c. 1628 — nasce João Ferreira de Almeida, em Torre de Tavares, Portugal. Ainda jovem, converte-se à fé herdeira da Reforma Protestante no Sudeste Asiático, onde viveria o resto da vida a serviço da Igreja Reformada Holandesa.

1676 — Almeida conclui o Novo Testamento. A tradução foi feita a partir do grego, e a primeira impressão saiu em Amsterdã em 1681. Essa edição saiu com muitos erros, e uma versão revista só circulou depois da morte do tradutor.

1691 — morte de Almeida em Batávia (atual Jacarta, Indonésia). Ele havia traduzido o Antigo Testamento até Ezequiel 48:21. O trabalho foi concluído por Jacobus op den Akker em 1694, e o Antigo Testamento saiu impresso em dois volumes, em 1748 e 1753.

1778–1790 — a tradução de António Pereira de Figueiredo. O padre português traduziu a Bíblia a partir da Vulgata latina, em fascículos, reunidos em sete volumes em 1790. Foi durante muito tempo a referência entre católicos de língua portuguesa.

1819 a 1917 — Almeida em volume único e a Tradução Brasileira. A Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira publicou o texto de Almeida em um só volume em 1819 e lançou uma edição revista em 1898, base da linha "Revista e Corrigida". Em 1917 saiu completa a Tradução Brasileira, feita por uma comissão no país.

1959 — Almeida Revista e Atualizada (ARA). A Sociedade Bíblica do Brasil (SBB) publicou uma revisão mais profunda do texto de Almeida, com vocabulário atualizado. Recebeu segunda edição em 1993 e virou padrão em muitas igrejas protestantes históricas.

Décadas de 1950 a 1980 — edições católicas brasileiras. Surgem a Ave-Maria (lançada no fim dos anos 1950 em São Paulo), a edição das Paulinas, a tradução da Vozes e, em 1981, a edição em português da Bíblia de Jerusalém, revista em 2002.

2000 e 2001 — NTLH e NVI. A SBB lançou a Nova Tradução na Linguagem de Hoje em 2000. A NVI completa em português saiu em 2001, depois do Novo Testamento em 1983. No mesmo ano, a CNBB publicou sua tradução oficial.

2016 e 2017 — NVT e NAA. A Nova Versão Transformadora (NVT) foi lançada pela Mundo Cristão em 2016, e a Nova Almeida Atualizada (NAA), da SBB, em 2017, como nova revisão da ARA.

O que muda de uma tradução para outra

Toda tradução bíblica trabalha a partir de textos em hebraico, aramaico e grego. As diferenças entre as versões vêm de três escolhas principais.

1. Método. Traduções de equivalência formal tentam reproduzir palavra por palavra e a ordem do original. As de equivalência funcional (ou dinâmica) priorizam o sentido em português natural, mesmo reorganizando a frase. A maioria fica em algum ponto entre os dois extremos.

2. Texto-base. A ARC segue de perto o chamado Texto Recebido (Textus Receptus), base das edições impressas do Novo Testamento grego a partir do século 16. Traduções mais recentes, como ARA, NAA e NVI, usam edições críticas, que comparam os manuscritos mais antigos conhecidos. É por isso que alguns versículos aparecem entre colchetes ou em nota de rodapé em umas e no corpo do texto em outras.

3. Cânon. Bíblias católicas trazem 73 livros, com os sete deuterocanônicos (Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc) e trechos gregos de Ester e Daniel. Bíblias protestantes trazem 66. A diferença é explicada em detalhe no guia do Antigo Testamento.

Um mesmo versículo em três versões

Ver o mesmo texto lado a lado mostra melhor que qualquer explicação. João 3:16:

  • ARC: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna."
  • NVI: "Porque Deus tanto amou o mundo que deu o seu Filho Unigênito, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna."
  • NTLH: "Porque Deus amou o mundo tanto, que deu o seu único Filho, para que todo aquele que nele crer não morra, mas tenha a vida eterna."

O sentido é o mesmo. Muda o registro: a ARC mantém "unigênito" e "pereça", termos mais técnicos; a NTLH troca por "único Filho" e "não morra", mais acessíveis, mas com perda de nuance para quem estuda.

Comparação das principais versões

VersãoTradiçãoMétodoMelhor para
ARC (Almeida Revista e Corrigida)ProtestanteFormal, linguagem tradicionalQuem já está acostumado e igrejas que a usam no culto
ARA (Almeida Revista e Atualizada)ProtestanteFormalEstudo e leitura em igrejas históricas
NAA (Nova Almeida Atualizada)ProtestanteFormal com linguagem atualEstudo com leitura mais fluida
NVI (Nova Versão Internacional)ProtestanteIntermediárioLeitura diária e estudo em grupo
NVT (Nova Versão Transformadora)ProtestanteFuncionalLeitura corrida de trechos longos
NTLH (Linguagem de Hoje)Protestante (há edição com deuterocanônicos)FuncionalPrimeiro contato, crianças, adolescentes
Ave-MariaCatólicaTradicionalUso devocional católico
Bíblia de JerusalémCatólicaAcadêmico, com notas extensasEstudo, introduções e referências cruzadas
Bíblia da CNBBCatólicaLinguagem atualLeitura alinhada à liturgia no Brasil
TEB (Tradução Ecumênica)Católicos e protestantesAcadêmicoEstudo comparado entre tradições

Como escolher na prática

Se você vai estudar um texto a fundo, use uma tradução formal (ARA ou NAA, ou a Bíblia de Jerusalém, no caso católico) e compare com uma funcional. Onde as duas divergem costuma estar exatamente o ponto que merece atenção. O passo a passo está no guia de como estudar a Bíblia.

Se o objetivo é ler a Bíblia inteira, a fluidez pesa mais. NVI, NVT e NTLH ajudam a manter o ritmo em livros longos como Levítico ou os Profetas.

Se você frequenta uma igreja, vale ter a mesma versão usada no púlpito e na liturgia. Isso facilita acompanhar leituras, memorizar textos e participar de estudos em grupo.

Desconfie de "Bíblias" sem responsável identificado. Uma tradução séria informa a equipe ou a instituição responsável, o texto-base e a edição. Sociedades bíblicas e editoras com tradição publicam essas informações na introdução.

Por que Almeida ainda importa

Três das versões mais vendidas no Brasil (ARC, ARA e NAA) são revisões sucessivas do trabalho de um tradutor que morreu em 1691 sem ver a Bíblia completa impressa. Expressões que entraram na fala comum, como "o sal da terra" (Mateus 5:13) e "a letra mata" (2 Coríntios 3:6), circularam por gerações nessas edições. Conhecer essa origem ajuda a entender por que tantas igrejas brasileiras ainda resistem a trocar de versão.

Fontes