Jejum, na tradição cristã, é a abstenção voluntária de alimento, total ou parcial, por um tempo determinado, unida à oração. A Bíblia o apresenta como sinal de humildade, arrependimento e busca de Deus em momentos decisivos, nunca como técnica para obrigar Deus a agir.

O jejum aparece em dezenas de passagens. Este estudo percorre as principais em ordem, separa o que o texto diz do que as tradições construíram a partir dele e termina com orientações práticas.

No Antigo Testamento: um dia fixo e muitos jejuns de crise

O único jejum prescrito na Lei

A Lei de Moisés prevê um dia anual de jejum para todo o povo, o Dia da Expiação (Yom Kippur): "no décimo dia do sétimo mês, vocês negarão a vocês mesmos", diz Levítico 16:29 (NVI). A própria NVI anota que a expressão pode ser traduzida como "jejuarão". O judaísmo pratica esse jejum até hoje.

Jejuns em momentos de crise

Fora desse dia, os jejuns do Antigo Testamento são quase sempre respostas a uma situação concreta:

PassagemQuem jejuaMotivo
Êxodo 34:28MoisésQuarenta dias no Sinai, quando recebe as tábuas da aliança
2 Samuel 12:16DaviPela vida do filho doente
Ester 4:16Ester e os judeus de SusãTrês dias antes de ela se apresentar ao rei
Daniel 10:2-3DanielTrês semanas sem "nada saboroso", carne nem vinho
Jonas 3:5Os ninivitasArrependimento diante da mensagem de Jonas
Joel 2:12O povo de JudáConversão "com jejuns, com choro e com pranto" (ARA)

Um caso costuma ser lido com mais liberdade do que o texto permite: Elias. Em 1 Reis 19:8, ele "comeu e bebeu; e, com a força daquela comida, caminhou quarenta dias e quarenta noites até Horebe" (ARA). O texto não diz que Elias jejuou; muitos intérpretes leem a passagem como um jejum, pela semelhança com Moisés e Jesus, mas isso é interpretação.

A crítica dos profetas

Os profetas questionam o jejum feito como ritual vazio. Isaías 58:6 (ARA) pergunta: "não é este o jejum que escolhi: que soltes as ligaduras da impiedade, desfaças as ataduras da servidão, deixes livres os oprimidos e despedaces todo jugo?". O versículo seguinte fala em repartir o pão com o faminto. Zacarias 7:5 faz a mesma pergunta aos que jejuaram por setenta anos: "foi para mim que jejuastes?" (ARA).

A lição atravessa toda a tradição cristã: jejum sem mudança de vida e sem justiça não tem valor.

No Novo Testamento: o que Jesus ensinou

Jesus jejuou quarenta dias no deserto antes do ministério público (Mateus 4:2). No Sermão do Monte, ele não manda jejuar, mas pressupõe que os discípulos jejuarão: "Quando jejuarem, não mostrem uma aparência triste como os hipócritas [...]. No entanto, quando você jejuar, unja a cabeça e lave o rosto, para que não pareça aos outros que você está jejuando, mas apenas a seu Pai, que vê em secreto" (Mateus 6:16-18, NVI).

Quando perguntam por que seus discípulos não jejuam, Jesus responde que os convidados não ficam de luto enquanto o noivo está presente, mas "virão dias quando o noivo lhes será tirado e, então, jejuarão" (Mateus 9:15, NVI). As igrejas leem aqui a base do jejum cristão depois da ascensão.

Na parábola do fariseu e do publicano, o fariseu se gaba: "Jejuo duas vezes por semana" (Lucas 18:12, NVI). Jesus não condena o jejum, mas a confiança na própria prática.

Em Atos, a igreja de Antioquia jejua e ora antes de enviar Barnabé e Saulo (Atos 13:2-3), e Paulo e Barnabé fazem o mesmo ao designar presbíteros nas igrejas (Atos 14:23). O jejum aparece ligado a decisões e envios.

Os primeiros cristãos: quarta e sexta

A Didaqué, manual cristão do fim do século 1 ou início do 2, diz: os "hipócritas" jejuam na segunda e na quinta; os cristãos devem jejuar na quarta e na sexta (Didaqué 8:1). A escolha dos dias marcava identidade diante de outros grupos, e o jejum de quarta e sexta permanece até hoje no calendário ortodoxo.

Como cada tradição pratica hoje

TradiçãoRegra ou costume atualDocumento de referência
CatólicaSextas-feiras e Quaresma são tempos de penitência. Jejum e abstinência de carne na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira Santa. Abstinência a partir dos 14 anos; jejum para os maiores de idade "até terem começado os sessenta anos". A conferência episcopal pode trocar a abstinência das sextas por outras penitênciasCódigo de Direito Canônico, cân. 1249-1253
OrtodoxaQuartas e sextas ao longo do ano, salvo semanas festivas; quatro jejuns longos: Grande Quaresma, dos Apóstolos, da Dormição (1º a 14 de agosto) e do Natal (15 de novembro a 24 de dezembro). Nos dias estritos, sem carne, ovos, laticínios, peixe, vinho e azeiteCalendário litúrgico (Orthodox Church in America)
LuteranaO jejum é aprovado como disciplina, mas sem dias e alimentos obrigatórios e sem valor de méritoConfissão de Augsburgo (1530), art. 26
Reformadas e evangélicasPrática pessoal ou jejuns coletivos convocados pela igreja em momentos especiaisSem calendário fixo
PentecostaisJejuns frequentes, muitas vezes ligados a campanhas de oração e consagraçãoCostume das igrejas locais

A Confissão de Augsburgo resume bem a posição protestante clássica: não se condena "o jejum em si", mas as tradições que impõem dias e alimentos "com perigo para a consciência", e a disciplina não serve para "merecer a graça". Já católicos e ortodoxos entendem o calendário comum como forma de a Igreja inteira jejuar junto, não como compra de mérito. As diferenças são históricas e teológicas; nenhuma tradição pode ser apresentada como a única leitura bíblica possível.

Formas comuns de jejum

  • Jejum total de alimentos, com água, por algumas horas ou um dia. É o mais comum entre evangélicos.
  • Jejum parcial, como uma refeição por dia ou abstenção de carne, à maneira católica.
  • "Jejum de Daniel": inspirado em Daniel 10:2-3, evita carnes, doces e bebidas alcoólicas por um período. O texto bíblico fala em "nada saboroso", carne e vinho; o cardápio exato de hoje é adaptação moderna.
  • Jejum de hábitos, como redes sociais ou entretenimento. Não é jejum no sentido bíblico estrito, mas aplica o mesmo princípio de abrir espaço para a oração.

Cuidados de saúde

Jejuar sem comida pode ser perigoso para gestantes e lactantes, pessoas com diabetes, doenças renais ou cardíacas, histórico de transtornos alimentares, crianças, adolescentes e quem toma remédios que exigem alimento. Nesses casos, a orientação é falar com o médico antes, e a própria regra católica limita a obrigação do jejum por idade. Para quem nunca jejuou, comece com uma refeição, mantenha a hidratação e evite jejuns longos sem acompanhamento. Nenhuma tradição cristã séria pede que alguém arrisque a saúde.

Dúvidas comuns

Quem não jejua está em pecado? Para a maioria das igrejas protestantes, o jejum é recomendado, não obrigatório. Na Igreja Católica, os dias de jejum e abstinência são preceito para quem está nas idades previstas e tem saúde para isso.

Jejum e oração precisam andar juntos? Em quase todas as passagens bíblicas, sim. Sem oração, o jejum vira dieta. Um roteiro diário de oração está em como montar um tempo devocional.

Posso jejuar em grupo? Sim. Ester convocou um jejum coletivo, e a igreja de Antioquia jejuou junta. Muitas igrejas fazem jejuns comunitários, e o acompanhamento de outros é parte do discipulado.

Para situar o jejum entre as demais práticas da semana, veja vida cristã no dia a dia. Para a origem dos calendários de cada igreja, veja a origem das denominações cristãs.

Fontes