O cristianismo se espalhou pelo mundo em ondas missionárias, cada uma com seus agentes e métodos. Os apóstolos levaram a fé pelo Império Romano; monges a levaram aos povos da Europa e da Ásia; ordens católicas como a dos jesuítas acompanharam a expansão ibérica, inclusive no Brasil, a partir de 1549; e sociedades missionárias protestantes, a partir de 1792, alcançaram a Ásia e a África. No século 20, a iniciativa passou cada vez mais para as igrejas do hemisfério sul.
Essa história mistura dedicação extraordinária e episódios de violência ligados ao colonialismo. Os historiadores atuais tentam olhar para as duas coisas ao mesmo tempo.
Primeira onda: a igreja apostólica (século 1 a 4)
O ponto de partida é a ordem atribuída a Jesus de fazer discípulos "de todas as nações" (Mateus 28:19). Atos dos Apóstolos narra a expansão de Jerusalém a Roma, com destaque para as viagens de Paulo de Tarso.
Fora do Império Romano, a fé chegou cedo à Mesopotâmia, à Armênia, que a tradição considera o primeiro reino oficialmente cristão (início do século 4), e à Etiópia, onde o reino de Axum adotou o cristianismo no século 4.
Segunda onda: monges e povos da Europa e da Ásia (século 5 a 10)
Irlanda. Patrício, um bretão romanizado que havia sido escravizado na Irlanda na juventude, voltou à ilha como missionário no século 5. Seus próprios escritos, a "Confissão" e a "Carta a Corótico", são as principais fontes sobre sua vida.
Inglaterra. Em 597, o papa Gregório Magno enviou o monge Agostinho, depois primeiro arcebispo de Cantuária, para o reino de Kent.
Eslavos. Em 863, os irmãos Cirilo e Metódio, de Tessalônica, foram enviados à Grande Morávia. Criaram o alfabeto glagolítico para traduzir textos litúrgicos e bíblicos para o eslavo, base da escrita cirílica usada hoje em russo, búlgaro e sérvio.
China. Monges da Igreja do Oriente chegaram à capital Chang'an (atual Xi'an) em 635, segundo uma estela de pedra erguida em 781 e redescoberta no século 17.
Terceira onda: as ordens católicas e a expansão ibérica (século 16 a 18)
Franciscanos, dominicanos, agostinianos e jesuítas acompanharam as navegações de Portugal e Espanha. O jesuíta Francisco Xavier chegou à Índia em 1542 e ao Japão em 1549; Matteo Ricci se estabeleceu em Pequim em 1601, adaptando a apresentação da fé à cultura chinesa.
No Brasil, os primeiros jesuítas chegaram a Salvador em 1549, com a armada do governador-geral Tomé de Sousa, liderados por Manuel da Nóbrega. Em 25 de janeiro de 1554, um grupo de jesuítas, do qual fazia parte o jovem José de Anchieta, fundou o colégio de São Paulo de Piratininga, origem da cidade de São Paulo.
Anchieta estudou o tupi e escreveu a "Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil", impressa em Coimbra em 1595. Os jesuítas organizaram aldeamentos indígenas e colégios, e no século 17 o padre Antônio Vieira denunciou em sermões a escravização dos indígenas. A Companhia de Jesus foi expulsa do Brasil e de Portugal em 1759, por ordem do marquês de Pombal.
Quarta onda: as missões protestantes modernas (1732 a 1910)
Os pioneiros protestantes foram os morávios de Herrnhut, na Saxônia, que a partir de 1732 enviaram missionários às Antilhas e depois à Groenlândia, à América do Norte e à África.
Em 1792, o sapateiro e pastor batista inglês William Carey publicou "An Enquiry into the Obligations of Christians to Use Means for the Conversion of the Heathens" e ajudou a fundar a Sociedade Missionária Batista. Partiu para a Índia em 1793, onde trabalhou em traduções da Bíblia para várias línguas e na fundação do Serampore College. Por isso é chamado de "pai das missões modernas".
O século 19, que o historiador Kenneth Scott Latourette chamou de "o grande século" das missões, viu surgir dezenas de sociedades missionárias. Hudson Taylor fundou a Missão para o Interior da China em 1865; David Livingstone percorreu a África austral e central. Foi nessa onda que chegaram ao Brasil os missionários congregacionais (1855), presbiterianos (1859) e batistas (1881-1882), como mostra como surgiram as denominações.
Quinta onda: o cristianismo mundial (de 1910 em diante)
A Conferência Missionária Mundial de Edimburgo, em 1910, reuniu cerca de 1.200 delegados de sociedades protestantes e é considerada o berço do movimento ecumênico moderno. Quase todos os participantes vinham da Europa e da América do Norte.
Em 1974, o Congresso Internacional de Evangelização Mundial, em Lausanne, na Suíça, convocado por um comitê liderado por Billy Graham, produziu o Pacto de Lausanne. Teólogos latino-americanos como o equatoriano René Padilla e o peruano Samuel Escobar defenderam ali a "missão integral", que une evangelização e responsabilidade social.
Do lado católico, o Concílio Vaticano II publicou o decreto Ad Gentes (1965), sobre a atividade missionária, enfatizando o respeito às culturas locais. Hoje, igrejas da América Latina, da África e da Ásia enviam missionários a outros continentes, inclusive à Europa.
Leitura crítica: o que os historiadores discutem
Missão e colonialismo. Em muitos lugares, a evangelização acompanhou a conquista. No Brasil, os aldeamentos protegeram indígenas de alguns colonos, mas também os deslocaram, e as epidemias trazidas pelos europeus devastaram populações inteiras.
Tradução e preservação. Ao mesmo tempo, missionários produziram as primeiras gramáticas e dicionários de dezenas de línguas, como a de Anchieta para o tupi, hoje fontes valiosas para linguistas.
Mudança de protagonistas. O cristianismo cresceu muito na África depois do fim do período colonial, conduzido por líderes africanos. Para o historiador Andrew Walls, esse deslocamento do centro de gravidade para o hemisfério sul é um dos fatos mais importantes da história recente da fé.
A dimensão atual do trabalho missionário, com seus tipos e debates, está em o que são missões cristãs, e perfis de pioneiros estão em missionários que marcaram a história.
Fontes
- World History Encyclopedia. Saint Patrick.
- Wikipedia. Saints Cyril and Methodius.
- Wikipedia. Xi'an Stele.
- Wikipédia. Companhia de Jesus no Brasil.
- Christian History Institute. William Carey: A Gallery of Missionary Pioneers.
- Wikipedia. 1910 World Missionary Conference.
- Movimento Lausanne. Pacto de Lausanne (1974).
- Santa Sé. Decreto Ad Gentes (1965).




