As tendências religiosas mais bem documentadas hoje são três: no Brasil, a queda da proporção de católicos e o crescimento de evangélicos e de pessoas sem religião; nos Estados Unidos, uma estabilização depois de décadas de declínio cristão; e, no mundo, a perda de participação dos cristãos na população global, puxada por quem deixa a fé. Fora disso, muitas "tendências" que circulam nas redes se apoiam em pesquisas frágeis.

Este texto apresenta os dados mais sólidos e um método simples para avaliar qualquer número sobre religião.

O que o Censo 2022 mostrou

O IBGE divulgou em 6 de junho de 2025 os resultados de religião do Censo 2022, referentes à população de 10 anos ou mais:

Grupo20102022
Católicos65,1%56,7%
Evangélicos21,6%26,9%
Sem religião7,9%9,3%

Em números absolutos, eram 100,2 milhões de católicos e 47,4 milhões de evangélicos. A idade faz diferença: os evangélicos chegam a 31,6% entre crianças de 10 a 14 anos, enquanto os católicos alcançam 72% entre quem tem 80 anos ou mais.

O Censo é a fonte mais robusta que existe para o Brasil, porque não depende de amostra pequena. A limitação é a frequência: ele mede identidade religiosa a cada década e não diz quanto as pessoas praticam.

O que mostram os Estados Unidos

O Pew Research Center publicou em fevereiro de 2025 o Religious Landscape Study 2023-24, com 36.908 entrevistados. A proporção de adultos que se declaram cristãos caiu de 78% em 2007 para 71% em 2014 e 62% em 2023-24. Os sem religião foram de 16% para 23% e 29% no mesmo período.

O próprio Pew aponta que a fatia cristã oscila entre 60% e 64% desde 2019 e "mostra sinais de estabilização, ao menos temporária". Não fala em avivamento. A diferença entre gerações continua grande: 46% dos adultos de 18 a 24 anos se dizem cristãos, contra 80% dos que têm 74 anos ou mais.

O mundo

Em junho de 2025, o Pew publicou a comparação global entre 2010 e 2020. Os cristãos somavam 2,3 bilhões de pessoas em 2020, ou 28,8% da população mundial, uma queda de 1,8 ponto percentual na década. Segundo o relatório, o principal fator foi a desfiliação: para cada pessoa que aderiu ao cristianismo, 3,1 deixaram.

A África subsaariana passou a ter o maior número de cristãos do mundo, com 30,7% do total, à frente da Europa, com 22,3%. Mais dados sobre esse quadro estão em panorama do cristianismo hoje.

Quando duas pesquisas sérias discordam

Em 2025, o projeto State of the Church, do instituto Barna com a empresa Gloo, divulgou que homens das gerações Z e millennial puxavam um aumento de frequência à igreja nos Estados Unidos. Segundo a cobertura do site Religion Unplugged, 43% dos homens e 36% das mulheres relataram frequência semanal em 2025.

Em dezembro de 2025, o Pew publicou análise com outra conclusão. Suas pesquisas e outras de alta qualidade, diz o texto, "não mostram evidência clara" de um ressurgimento religioso nacional. Entre os nascidos de 1995 a 2002, 55% se identificavam com uma religião em 2025, contra 57% em 2020. O Pew atribui a aproximação entre rapazes e moças à queda da religiosidade feminina, e não a um aumento entre os homens.

As duas pesquisas medem coisas diferentes, com amostras e perguntas diferentes. Diante de resultados opostos, a leitura prudente é não tratar nenhuma tendência como confirmada até que outras fontes independentes apontem na mesma direção.

Um caso para aprender: o "Quiet Revival"

Em 2025, a Bible Society, do Reino Unido, publicou o relatório The Quiet Revival, baseado em dois levantamentos online feitos pelo instituto YouGov em 2018 e 2024. O estudo indicava alta na frequência mensal à igreja, de 8% para 12% dos adultos, e um crescimento expressivo entre jovens, e foi muito citado em igrejas de vários países.

Em março de 2026, a Bible Society retirou o relatório do ar. O YouGov admitiu que parte dos sistemas antifraude não funcionou corretamente na pesquisa de 2024 e que grupos demográficos destacados no estudo continham respondentes fraudulentos, o suficiente para alterar o resultado principal. A Bible Society afirmou que os dados não podem mais ser usados como base, mas disse continuar convencida de que há maior interesse pela fé entre jovens e anunciou novas pesquisas, incluindo amostras probabilísticas.

O caso não prova que não exista mudança alguma entre jovens britânicos. Prova que um número muito repetido pode depender de uma única pesquisa com falhas.

Roteiro para avaliar um número sobre religião

  1. Quem fez e quem pagou? Institutos como IBGE e Pew publicam metodologia completa. Releases de empresas que vendem produtos para igrejas merecem cautela redobrada.
  2. Qual é a amostra? Tamanho, período de campo e população (adultos, cristãos, pastores). Pesquisas probabilísticas costumam ser mais confiáveis que painéis online de adesão voluntária.
  3. O que foi perguntado? "Identidade religiosa", "frequência no último mês" e "frequência semanal" são indicadores diferentes.
  4. Há série histórica comparável? Mudanças de método, como passar do telefone para a internet, podem criar variações que não são reais.
  5. Outras fontes confirmam? Uma tendência sólida aparece em mais de um levantamento.
  6. Vale para o Brasil? Dados dos Estados Unidos ou do Reino Unido não se transferem automaticamente para cá.
  7. Quem está dentro de cada categoria? No Censo, "evangélicos" reúne igrejas muito diferentes, de luteranos e batistas a pentecostais, e um crescimento do grupo não diz qual delas cresceu. O mapa dessas famílias está em principais denominações cristãs.

Esses critérios estão desenvolvidos em como interpretar pesquisas sobre cristianismo.

Dúvidas comuns

Os jovens brasileiros estão deixando a religião?

O Censo 2022 mostra crescimento dos sem religião na população em geral e forte presença evangélica entre os mais jovens. Para entender a fé dessa geração além dos números, veja juventude cristã: desafios de hoje.

Existe um avivamento religioso nos Estados Unidos?

Os dados do Pew indicam estabilização, não crescimento. Outras pesquisas apontam aumento de frequência entre homens jovens, mas os resultados ainda não convergem.

Fontes